Zacarias Gama[1]
Recentemente escrevi dois textos, publicados neste blog,
sobre a precariedade da educação pública brasileira, motivado pela constatação,
nas redes sociais, de um analfabetismo que já não se limita à incapacidade de
decifrar textos simples ou construir frases coerentes. Trata-se de um fenômeno
mais amplo, que se expandiu para o campo da sensibilidade, da atenção e da
interpretação do mundo social. É um analfabetismo ampliado, que opera menos
pela ausência de informação e mais pela dificuldade de estabelecer mediações,
compreender estruturas, sustentar a dúvida e tolerar a complexidade. Diante
desse quadro, uma pergunta se impôs quase espontaneamente: quem está educando
hoje o imaginário brasileiro — e por quais meios?
A resposta que encontrei não veio da escola. Tampouco das
universidades ou do campo intelectual organizado. O mundo acadêmico, embora
produza conhecimento sofisticado sobre educação, cultura e sociedade, fala
majoritariamente para seus pares, protegido por circuitos institucionais
restritos e por uma linguagem cada vez mais autorreferente. A esquerda
cultural, que em outros momentos históricos foi capaz de formular narrativas
comuns e disputar hegemonia simbólica, encontra-se hoje fragmentada, defensiva
e incapaz de produzir uma gramática compartilhada. Florestan Fernandes já
observava o paradoxo de a esquerda brasileira ter perdido densidade hegemônica
justamente no período de transição da ditadura para a democracia, quando as
condições institucionais para a disputa cultural pareciam mais favoráveis.
A escola pública, por sua vez, abandonada, sobrecarregada e
submetida a políticas erráticas, fez — e faz — o que pode, e quase sempre pode
pouco. Isso não a torna neutra nem inocente: mesmo fragilizada, a escola
continua produzindo consensos, silêncios e rotinas. Ainda assim, sua capacidade
de organizar sentidos e formar subjetividades encontra-se profundamente
debilitada.
Esse vazio pedagógico não permaneceu desocupado. Ao
contrário, foi rapidamente preenchido por instâncias muito mais eficazes na
disputa pela atenção, pelos afetos e pela formação cotidiana das percepções. As
plataformas digitais educam de forma contínua e persistente, não por meio de
conteúdos sistemáticos, mas pelo hábito, pela repetição e pelo vício. O
algoritmo ensina o que ver, como reagir, o que ignorar e o que odiar.
Influenciadores com quaisquer níveis de formação operam como autoridades sem
mediação, dispensando critérios de validação, debate público ou
responsabilidade intelectual. Igrejas midiáticas oferecem um mundo moralmente
simples, reconfortante para quem já desistiu de compreender a complexidade
social. A televisão, o streaming e a política populista digital completam esse
ecossistema pedagógico difuso, ensinando diariamente modos de sentir, julgar e
interpretar o mundo.
A própria música popular brasileira, que em outros momentos
pôde funcionar como instrumento de contestação, promessa de “salvação nacional”
e de construção poderoso imaginário social, tornou-se majoritariamente
mercadoria de consumo imediato e afirmação de identidades localizadas. Sua
atual simplicidade comunicativa, longe de ser um defeito, é precisamente o que
garante seu sucesso.
Não se trata de um processo homogêneo nem isento de
contradições. Há usos críticos, fissuras e apropriações desviantes dessas
tecnologias. Ainda assim, sua eficácia pedagógica é inegável. Aprende-se a
reagir antes de pensar, a escolher lados antes de compreender estruturas, a
consumir opiniões prontas como quem desliza o dedo na tela. O grito substitui o
argumento; a lacração, a análise; o ressentimento, a crítica. A razão, nesse
contexto, tornou-se um artigo de luxo.
É nesse cenário que a crise contemporânea da escola precisa
ser compreendida. Insisto na tese de que essa crise não pode ser vista como
acidente conjuntural, nem como resultado da suposta decadência moral dos
estudantes ou da incompetência dos professores, mas como expressão histórica do
esgotamento de um modelo institucional. A escola moderna foi constituída entre
os séculos XVIII e XIX como aparelho disciplinar, organizador das hierarquias
sociais e difusor da racionalidade necessária ao capitalismo industrial. Sua
forma — seriada, homogênea, textual e temporalmente fragmentada — respondeu às
exigências de uma sociedade que precisava disciplinar corpos, organizar o tempo
do trabalho e produzir sujeitos adaptados à lógica fabril. Trata-se de uma
instituição moldada por uma era que sequer concebia a centralidade do capital
imaterial.
A crítica a essa instituição não é nova. Desde a segunda
metade do século XX, autores como Althusser (1970), Bourdieu e Passeron (1975),
Bowles e Gintis (1976) demonstraram que a escola opera como aparelho de
reprodução social, legitimando desigualdades estruturais e naturalizando
hierarquias de classe, raça e gênero. Esses diagnósticos, longe de serem
descartados, continuam válidos. O que se alterou, entretanto, foram as
condições históricas nas quais a escola exerce — ou deixa de exercer — sua
função formadora.
Com o avanço das pesquisas, abordagens estritamente
reprodutivistas foram tensionadas por cientistas da educação que recusaram o
determinismo estrutural e enfatizaram o caráter contraditório da instituição
escolar. Giroux (1983), Apple (1995), Enguita (1989), Saviani (2008), Willis
(1977), Bernstein (1996), Luiz Antônio Cunha (1975), Gaudêncio Frigotto (1984)
e Tomaz Tadeu da Silva (1988) evidenciaram que a escola não é um mecanismo
automático, mas um espaço atravessado por disputas, resistências e projetos em
conflito. O currículo, nesse sentido, aparece como arena cultural na qual se
confrontam interesses e visões de mundo. A reprodução social, portanto, não é
mecânica, mas mediada por práticas, significados, culturas juvenis e ações
docentes.
Assumir essa perspectiva dialética é fundamental para
compreender o presente. A escola continua reproduzindo desigualdades, mas já
não detém — e por certo nunca tenha detido plenamente — o monopólio simbólico
da formação. Desde seu surgimento na modernidade, ela sempre disputou atenção
com outras instâncias pedagógicas, religiosas, familiares, midiáticas e
culturais. O que se altera hoje é a intensidade e a eficácia dessa disputa.
Esse deslocamento ajuda a explicar o desprezo crescente dos estudantes pela
instituição escolar e o mal-estar profundo que atravessa o trabalho docente.
Quando professores relatam indiferença, desinteresse ou resistência, não estão
diante de um colapso moral da juventude, mas do choque entre a forma escolar
herdada da sociedade industrial e as formas contemporâneas de sociabilidade,
trabalho e produção de sentido.
Os depoimentos docentes que circulam nas redes, marcados por
frustração, indignação e sensação de impotência, revelam a perda de função
simbólica da escola e sua inadequação formal às condições atuais do capitalismo
informacional. No entanto, ao personalizar problemas estruturais, esses
discursos acabam obscurecendo o fenômeno que pretendem denunciar. Culpar
alunos, famílias, professores, elites ou governos isoladamente é uma resposta
típica de contextos de crise institucional profunda. Como já demonstraram os
estudos críticos da educação, os problemas da escola não nascem dos indivíduos,
mas das estruturas sociais que os moldam.
O erro se agrava quando essa personalização vem acompanhada
de moralização. Atribuir a crise da escola à “falta de esforço”, à
“indisciplina”, à “preguiça” dos jovens ou a um “projeto das elites”, equivale
a ignorar que a própria instituição deixou de oferecer sentidos compartilhados
capazes de disputar o imaginário. A resistência estudantil contemporânea não se
dirige apenas a currículos descontextualizados ou práticas autoritárias; ela
tensiona o próprio modelo institucional da escola moderna — sua organização do
tempo, do espaço, das relações e das expectativas.
Nesse ponto, a crise da escola revela-se inseparável da
crise mais ampla da formação do imaginário social. Enquanto a instituição
escolar insiste em operar segundo uma lógica que exige demora, mediação e
abstração, o mundo exterior educa pela velocidade, pela emoção e pela
repetição. O campo progressista, por sua vez, parece assistir a esse
deslocamento com atraso e espanto, como se ainda acreditasse que o debate será
ganho exclusivamente no plano das ideias, quando a disputa já se deslocou para
o terreno dos afetos e da atenção. O silêncio, nesse contexto, não é prudência;
é omissão pedagógica.
Diante desse quadro, a pergunta “o que fazer?” não pode ser
respondida com voluntarismo ou nostalgia. Não se trata de salvar a velha
escola, nem de restaurar uma instituição que já não corresponde às formas
contemporâneas de vida. A construção de uma nova escola — e de uma nova
ecologia pedagógica — exige organização coletiva, projeto político e capacidade
de disputar sentidos. Não nascerá espontaneamente do sofrimento social. Exige
professores bem formados e adequadamente remunerados, sindicatos fortes, articulação
entre educação, ciência e cultura e um projeto que compreenda que formar
sujeitos hoje implica disputar o imaginário, o tempo e a atenção.
A escola capaz de enfrentar os desafios do século XXI não
pode ser meramente profissionalizante nem submissa ao mercado. Deve articular
teoria e prática, ciência e realidade, conhecimento e projeto de vida. Precisa
abandonar a fragmentação rígida do tempo escolar e apostar em blocos temáticos
longos, oficinas de produção, tempos de pesquisa e criação. Deve preservar a
centralidade da língua e da matemática, integrando-as a práticas socialmente
significativas. Sua marca não será a nostalgia disciplinar, mas a exigência
intelectual; não a moralização, mas a crítica; não a adaptação passiva, mas a
formação de sujeitos capazes de compreender e intervir na complexidade social.
Concluo afirmando que superar a crise da escola e enfrentar
a crise da formação do imaginário são, em essência, a mesma tarefa histórica. A
instituição educativa capaz de responder às demandas do presente será aquela
que assumir sua natureza dialética: reproduz, mas também transforma; conserva,
mas também reinventa. Não se trata de abdicar do ideal iluminista de
emancipação humana, mas de reconhecer que a razão só se sustenta se for capaz
de disputar formas, afetos e sentidos no interior das condições históricas
concretas do nosso tempo.
As escolas NAVE (Núcleo Avançado em Educação), criadas pelo
Estado do Rio de Janeiro em parceria com fundações privadas, assim como as
chamadas “ESCOLAS DO FUTURO” da Prefeitura do Rio, ilustram bem esse impasse.
Embora adotem um vocabulário progressista — inovação, protagonismo juvenil,
projeto de vida, tecnologia educacional —, tendem a operar em um registro
gerencial e tecnocrático. É lamentável que “futuro”, nesse contexto, não
aparece como categoria histórica ou política, mas como slogan. Ambas as
experiências são sintomas avançados da crise aqui analisada, não sua superação.
Indicam corretamente que a velha escola morreu, mas ainda não conseguiram
formular uma nova instituição educativa que não seja, no fundo, uma atualização
funcional do mesmo sistema.
[1] Professor Titular Aposentado da UERJ. Pesquisador independente nas áreas de educação, fotografia e crítica social
Referências
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1970.
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