A Dialética do Olhar ou como curtir uma foto

 


Observei atentamente como as pessoas olharam as fotografias que publiquei no Vol. 3 dos Artistas Unidos (Galeria Zagut, 2025, com curadoria de Isabela Simões e Augusto Herkenhoff). Poucas se detiveram em um pequeno momento de fruição; a maioria olhou como quem está à janela de um trem de alta velocidade: captando a paisagem, mas incapaz de contemplar o campo, as montanhas ou os vilarejos ao longe. Outras portaram-se como se estivessem diante de um painel publicitário qualquer. Em todas, percebia-se um distanciamento típico de quem não quer se deixar envolver ou transparecer emoção. Poderiam estar diante de uma coleção de fotos de um descarrilamento com várias vítimas, mas o olhar delas não seria diferente do de quem contempla um gol num jogo de garçons, no Aterro do Flamengo, às três da madrugada.

Talvez essas pessoas não saibam mais 'ver' uma foto, perdidas em olhares blasé e modos de ver saturados por uma sociedade imagética que consome tudo, mas não absorve nada. É o que Paul Virilio denominou 'estética da velocidade', na qual predominam os 'olhares de passagem'. Em exposições das quais participei, notei que muitos olham velozmente as obras, sem lhes atribuir a importância de espelho ou portal. É possível que, diante de uma imagem de Sebastião Salgado sobre os mineradores da Serra Pelada, essas mesmas pessoas tenham perdido a capacidade de serem pungidas por aquele sofrimento inumano. Tornaram-se tótens insensíveis: nada lhes atrai o olhar da alma, nada as toca. Talvez estejamos, enfim, produzindo imagens em excesso para uma sensibilidade em escassez.

Na contramão destes olhares, proponho alguns critérios para que possamos observar uma foto como uma verdadeira obra de arte.

O Domínio Técnico A apreciação começa pelos aspectos técnicos relativos à execução. Devemos questionar: a foto está muito exposta ou subexposta? Há detalhes escondidos pelas luzes altas ou pelas sombras profundas? O ponto de interesse está nítido ou o desfoque (bokeh) foi usado de forma intencional para isolar o assunto? As cores parecem naturais ou estão excessivamente azuladas ou amareladas? Há granulação que prejudica a qualidade? Quando a resposta a essas falhas é positiva, fica claro que estamos distantes de uma fotografia artística de excelência.

Composição e Desenho Visual A organização dos elementos no quadro merece toda a nossa atenção. Existem regras clássicas para situar um objeto; a quebra intencional delas pode ser um movimento de vanguarda do autor. Se na foto há linhas, atenção: podem ser estratégias para guiar o olhar ao assunto principal. Quando o fotógrafo usa essas 'linhas guia' com maestria, a imagem ganha força e harmonia. Além disso, o equilíbrio e a simetria são vitais. Uma foto pode se tornar visualmente 'pesada' ou 'entulhada' de informações, perdendo a beleza da harmonia. O fundo também narra a história: um cenário poluído distrai, enquanto um fundo bem escolhido contextualiza o momento.

Narrativa e Impacto Emocional Este é o critério mais subjetivo e, frequentemente, o mais importante. A intenção de quem fez o registro precisa estar clara: o que se quis mostrar? Houve a definição de um tema como solidão, alegria, caos ou geometria? A foto surpreende pela novidade do ângulo ou é apenas uma repetição de clichês? Em nossa sociedade saturada, as imagens óbvias são as menos notadas, pois nada trazem de novo.

Como ensinava o mestre Henri Cartier-Bresson, o fotógrafo deve capturar o 'instante decisivo': o ápice da ação ou da emoção. Seja uma criança atravessando uma poça d’água com sua bicicleta, revelando o espalhar da água e a pureza da alegria, ou o registro singelo de um cãozinho 'desfraldando' um bebê — quem não se detém para curtir essas imagens perde a chance de ser tocado pela vida que pulsa no papel."

Karl Marx bem demonstrou que a alienação retira do homem a consciência sobre o que ele produz e consome; na fotografia é igual, isso se traduz em um olhar que vê, mas não percebe. Precisamos compreender que os métodos de ver são, intrinsecamente, os métodos de fotografar. Não existe separação: a forma como o fotógrafo organiza o mundo no visor da câmera é o reflexo do seu método de apreensão da realidade. Se o fotógrafo opera sob um método de presença e crítica, ele exige que o espectador abandone o olhar blasé e adote, também, um método de ver que seja um ato de conhecimento. A técnica — o foco, a luz, a composição — não é um fim, mas o meio pelo qual o método de fotografar desafia a estética da velocidade e tenta resgatar o humano da sua condição de 'tótem insensível'."

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