Racismo educacional e a condenação da nossa juventude aos confins do sistema

 

   
 


Zacarias Gama


Nesta semana de Carnaval, escrevi um texto chamando a atenção para o racismo ambiental. Denunciei o racismo das autoridades governamentais – federais, estaduais e municipais – que menosprezam as áreas onde residem os mais vulneráveis — os pretos e pobres deste país. É chocante o abismo de atenção dispensada: por exemplo, enquanto na Zona Sul ou Sudoeste do Rio de Janeiro o rompimento de uma tubulação d’água é consertado de imediato, na Zona Norte o mesmo problema pode levar dias para ser corrigido. Essa gestão da escassez para uns e da eficiência para outros é a assinatura de um Estado racista.

As reflexões que fiz sobre essa cidade segregada e partida levaram-me, naturalmente, ao meu campo de estudo mais amplo: o educacional. É aqui que precisamos nomear o fenômeno: o racismo educacional. Ele não se manifesta apenas na precariedade das escolas públicas, mas na estrutura normativa que nega aos estudantes pretos e pobres o acesso aos saberes universais e críticos. É o racismo que opera por meio da subtração do pensamento, confinando o estudante ao adestramento técnico enquanto lhe retira as ferramentas de interpretação da sua própria realidade. Para compreender como essa engrenagem funciona, é preciso colocar sob a lente da mediação crítica a nossa LDB, a BNCC e a Reforma do Ensino Médio.

Ao comparar nossa legislação com a de outros países, a evidência do nosso atraso civilizatório é gritante, assim como o racismo educacional que se encontra entranhado em nossa legislação educacional. No México, a Constituição estabelece o "interesse superior" de crianças e jovens, garantindo programas que tornam eficaz o direito à educação. Na Bolívia, a educação é a "função suprema e primeira responsabilidade financeira do Estado". Na França, ela é a "primeira prioridade nacional". Nesses países, o projeto educativo visa formar seres humanos completos, sem preconceitos de qualquer espécie, com consciência social e respeito irrestrito à dignidade humana.

Aqui no Brasil, entretanto, a nossa legislação é pobre pelo fato de ser obediente à lógica mercadológica. A BNCC, que permanece em vigor como a régua de toda a educação básica, é o exemplo mais acabado dessa "obediência". Mesmo após as disputas e revisões recentes do Ensino Médio, a Base continua a padronizar o conhecimento sob a ótica das competências e habilidades demandadas pelo mercado, ignorando as profundas desigualdades de território. É uma norma que se pretende neutra e abrangente, mas que na prática exerce um racismo educacional feroz: ela cobra o mesmo desempenho de quem estuda no Leblon e de quem é exilado em um distante e interiorizado conjunto habitacional do Minha Casa, Minha Vida ou numa cidadezinha com menos de cinco mil habitantes, onde muitas vezes falta o básico para a sobrevivência e nada existe por perto.

O racismo ambiental encontra eco perfeito no racismo educacional das leis estruturantes do ensino no território brasileiro. Se no conjunto habitacional isolado o Estado nega a praça, o comércio e facilidade de deslocamentos, na escola uma e outra oferecem um currículo de competências e habilidades que reduz o horizonte do estudante ao "trabalho produtivo" imediato. Retira-se do ensino médio, sobretudo, a densidade da Sociologia, da Filosofia, da Geografia e da História — os instrumentos de desalienação — sob o pretexto de uma "flexibilidade" que, na prática, é apenas o abandono pedagógico.

Enquanto países como a Bolívia e o México avançam para uma educação soberana e decolonial, o Brasil mantém as suas principais leis educacionais como um instrumento de controle que treina o futuro trabalhador para ser multifuncional e "resiliente" na precarização. É a materialização educacional do mesmo descaso que vejo nas ruas da Zona Norte carioca ou nas periferias das cidades de médio e grande porte no interior do Brasil. O recado do Estado é um só, seja na falta de água, seja na falta de uma educação de qualidade referenciada socialmente com valor de uso e troca: "cada estudante, futuro trabalhador, que se vire como puder, se puder".

A justiça social é indissociável da justiça ambiental e educacional. Não basta a chave da casa se o território é um deserto; não basta a vaga na escola se o conhecimento oferecido é uma casca vazia desenhada para manter os privilégios das elites dominantes. Precisamos romper com essa "cidade partida" e com esse "racismo educacional" se quisermos, um dia, falar em democracia como valor universal.

Em última análise, o racismo ambiental e a vacuidade das nossas leis educacionais não são erros de percurso, mas ferramentas de uma engenharia de desumanização. Ao confinar o corpo ao exílio do asfalto e a consciência ao deserto de um currículo mercadológico, o Estado brasileiro opera uma amputação da ontologia do ser; nega-se ao estudante preto e pobre a possibilidade de se projetar como sujeito da história, reduzindo-o a uma peça de reposição na engrenagem da mais-valia. Romper com esse sistema exige mais do que reformas cosméticas: exige uma insurgência da inteligência que rejeite a 'cidade partida' e o 'racismo educacional'. A justiça ambiental e a soberania pedagógica devem convergir em um projeto de nação onde o território seja lugar de vida plena e a escola seja o laboratório da liberdade. Sem essa ruptura definitiva com o pacto da elite que desenha nossas leis e nossas ruas, a democracia continuará sendo uma farsa semântica, e o direito à cidade, um privilégio protegido pela sombra de árvores que o povo planta, mas nas quais não lhe é permitido descansar."

 

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