Por Zacarias Gama
Embora eu não habite o chão de um conjunto popular, a
constante mediação que realizo entre a realidade observada e a análise crítica
me permite decodificar o que as imagens que povoam a rede mundial de
computadores gritam: estamos diante de quilombos construídos às expensas do
Estado. O Residencial Diuza Gonçalves, em Teresina, ou outros semelhantes pelo
Brasil a fora, cujos registros acompanho com rigor, não são simples
empreendimentos; são a materialização de uma política que, sob o manto da
"casa própria", promove um exílio geográfico e social sistemático.
O que se apreende desta minha atividade intelectiva é um
projeto deliberado de invisibilidade. Milhares de famílias são deslocadas de
seus territórios de inserção histórica para serem depositadas em "casinhas
bem construídas" no mais absoluto vácuo urbano. O "meio do nada"
torna-se, assim, um depósito humano onde o direito à cidade é negado na própria
gênese do bairro: não há praças, não há lazer, não há o comércio que nasce da
convivência, nem mesmo uma igrejinha com seu singelo campanário para conferir
humanidade ao território.
Essa lógica de empurrar os vulneráveis para as franjas
extremas do mapa é a assinatura do racismo ambiental. Enquanto os condomínios
de classe média ostentam uma exuberante arborização e infraestrutura completa,
a periferia majoritariamente negra e pobre recebe o concreto nu. O sol de
Teresina ou do Rio de Janeiro, implacáveis em verões escaldantes, encontram
nessas ilhas de calor — ou nas ruas desérticas de muitos bairros da Zona Norte
— o cenário perfeito para castigar quem foi privado do direito ao microclima
amenizado, à brisa do mar e ao verde planejado.
É imperativo reconhecer que, sob a gestão do Presidente Lula,
o programa Minha Casa, Minha Vida incorporou avanços que tentam humanizar essa
estrutura. A exigência de transporte público nas proximidades, a inclusão de
varandas e pontos para ar-condicionado são vitórias da dignidade que não podem
ser subestimadas. Contudo, mesmo com esses avanços técnicos, a barreira da
segregação permanece de pé. As empreiteiras e seus arquitetos parecem ter o
racismo ambiental entranhado em si mesmos e em suas pranchetas.
A justiça social é indissociável da justiça ambiental. Não
se pode aceitar que o CEP de um cidadão determine seu acesso ao bem-estar
básico. Mas esse racismo não se limita aos novos conjuntos; ele é a marca
histórica das comunidades encarapitadas nos morros cariocas. Na Rocinha ou na Barreira
do Vasco, o Estado e a Prefeitura exercem seus racismos cotidianamente.
Negam-lhes coleta de lixo regular, água potável, saneamento e contenção de
encostas, enquanto permitem que indústrias poluentes, como a Refit, contaminem
o solo e o ar de populações já fragilizadas.
Qualquer condomínio que se ergue nas zonas Sul ou Sudoeste
do Rio está a anos-luz da precariedade imposta ao povo. A Zona Norte carioca,
em sua quase totalidade, é a grande vítima desse processo. Há décadas ela sofre
as consequências de eleger governantes que são, em essência, racistas
ambientais. São milhares de ruas sem uma única árvore, parques ou praças,
abandonadas ao sol escaldante, enquanto o investimento público se concentra
onde o verde já é abundante.
A Zona Norte é a perpetuação de um modelo de exclusão tão
escancarado que não se tem notícia de um único governador ou prefeito que seja
seu morador. Nossas autoridades — Governador, Prefeito, Deputados, Vereadores e
Ministros dos Tribunais — continuam a ser os arquitetos dessa "cidade
partida", como diria Zuenir Ventura, que ignora o princípio da democracia
como valor universal.
É uma pena que a população das comunidades mais vulneráveis
e da Zona Norte não se insurja contra este racismo ambiental e seus agentes.
Continua a eleger racistas que só bebem um cafezinho ou caldo de cana nessas
áreas em época de eleições, e pior, continua-se a homenageá-los com grandes
sambas no Sambódromo.
É o auge da alienação: celebrar quem, por trás do sorriso de
campanha, assina o projeto do seu exílio ambiental.
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