Equivoca-se quem pensa que um século se encerra rigorosamente em um 31 de dezembro. Como bem observou o historiador Eric Hobsbawm, a deflagração da Primeira Guerra Mundial foi a verdadeira responsável por sepultar o século XIX, e não uma simples data. De fato, a partir do desfecho do conflito, a Belle Époque e seu imaginário tornaram-se apenas lembranças difusas.
O cenário
bélico e os motores a explosão materializaram essa ruptura: as últimas brigadas
de cavalaria ligeira, herdeiras da Guerra Franco-Prussiana, foram subitamente
substituídas por carros de combate; o protagonismo das metralhadoras silenciou
o heroísmo romântico dos lanceiros de outrora. No campo social, a moral
puritana ruiu, dando lugar a novas formas de ser e agir, enquanto as
instituições religiosas sentiram o abalo de um mundo em mutação irreversível.
Paralelamente, na política, o operariado emergiu como protagonista inconteste,
conquistando reformas sociais profundas e consolidando o peso das massas nas
decisões do Estado.
O século XX,
sob a égide estadunidense, viu surgir o fenômeno do "agigantamento".
Não foram apenas os arranha-céus de mais de cem andares que se tornaram
gigantes; tudo se expandiu em escala monumental: represas gigantescas, pontes
colossais e uma capacidade produtiva bélica jamais imaginada. Essa confiança
técnica contaminou o Ocidente, e países como o Brasil espelharam-se nela para
aparelhar suas forças armadas nos mesmos moldes.
Entretanto,
a história reservou exceções notáveis. O Vietnã foi o primeiro a peitar a
potência gigante com táticas de guerrilha e o uso letal de armadilhas de bambu.
Hoje, o exemplo está no Irã, herdeiro da civilização persa. Desde a guerra
contra o Iraque (1980–1988), o país prepara-se para enfrentar hegemonias
regionais sem sucumbir ao gigantismo que o endividaria. Tirando proveito de sua
geografia, construiu túneis sob suas montanhas, belonaves rápidas e drones de
alta precisão e baixo-custo, sob uma organização tão descentralizada que a
perda de lideranças não interrompe o fluxo da vida nacional ou o esforço de
guerra.
A transição
que Hobsbawm identificou na fumaça da Grande Guerra encontra agora um novo
capítulo. Se o século XX foi o triunfo da máquina e da escala, o século XXI
desenha-se como o tempo de afirmação de nações com profundidade histórica.
Emerge um novo paradigma: China, Índia e Irã não são apenas Estados-nação
modernos; são Estados-civilização. Eles integram alta tecnologia à sabedoria
ancestral da guerra assimétrica, provando que o aço mais espesso pode ser
vencido pela astúcia de quem conhece o próprio chão há milhares de anos. Os
drones iranianos, além de causarem danos profundos, forçam o inimigo a gastos
de milhões de dólares para interceptá-los, provocando uma reviravolta na
doutrina militar mundial.
O atual
conflito — Irã contra a coligação Israel-EUA — fundado nesse novo padrão, está
longe de apontar uma derrota do Estado islâmico. Há fortes indícios de cansaço,
de reposição e de uma eventual retirada dos Estados Unidos do proscênio da
História como potência hegemônica. Com eles, retira-se também o Estado de
Israel, visto por essa ótica como uma artificialidade carente de raízes
civilizacionais profundas.
Descortina-se
de vez o novo século.
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