Por Que as Telas Não Substituem o Professor bem Qualificado e Motivado?

Copilot

 

 Zacarias Gama



Navegando a esmo pela minha bolha no Facebook, deparei-me com um fragmento do programa #DRcomDemori, da TV Brasil, no qual o escritor Marcos Piangers comenta pesquisas que reafirmam o professor como a peça mais fundamental da educação. Piangers destaca a urgência de investir na formação dos profissionais que atuam em sala de aula e reforça o papel central do docente no processo educativo. Seus achados contrariam a pressão contemporânea pela introdução massiva de tecnologias de última geração nas escolas e mencionam, inclusive, o movimento de retirada ou restrição desses dispositivos em instituições escolares da Finlândia, Suécia e Noruega — um gesto que recoloca o fator humano acima do fascínio tecnológico.

Desde logo, devo dizer ao leitor que concordo com a tese de Piangers: o professor é, de fato, o eixo estruturante do ensino e da aprendizagem. Contudo, é preciso acrescentar uma ressalva decisiva. A sua simples presença em sala de aula não basta para neutralizar os efeitos da digitalização indiscriminada do ambiente escolar nem garante, por si só, uma educação de qualidade. Para avançarmos nessa discussão, é necessário retornar a uma questão mais fundamental: como, afinal, aprendemos?

Aprender não é simples e tampouco é um ato mecânico. Trata-se de um fenômeno complexo que ultrapassa a memorização de dados ou a repetição de comportamentos, configurando-se, em última instância, como uma reestruturação da forma pela qual o indivíduo percebe e se relaciona com o mundo. Em termos mais rigorosos, o aprendizado ocorre quando o sujeito deixa de ser um mero espectador da informação e passa a processar o objeto do conhecimento de maneira ativa, integrando o que assimilou à sua estrutura mental preexistente. Esse movimento não é linear, mas dialético: a nova informação tensiona o que já se sabe e exige uma síntese que culmina em uma nova compreensão da realidade.

O processo de aprendizagem envolve a interação entre cognição, ambiente e cultura. O conhecimento consolida-se por meio da experiência e da reflexão sobre essa prática, na qual o erro não representa fracasso, mas uma etapa necessária da investigação. Sob uma perspectiva materialista, histórica e dialética, aprender é um processo de práxis: um movimento pelo qual o sujeito busca compreender a realidade material e social para transformá-la e, ao fazê-lo, transforma também a si mesmo. Assim, aprender não significa acumular conteúdos abstratos, mas apropriar-se criticamente da realidade concreta.

Conhece-se para tornar-se outro; conhece-se o mundo para poder transformá-lo. Nesse sentido, o aprendizado envolve uma tensão permanente entre o abstrato e o concreto, entre o conceito e a experiência. Aprender significa construir pontes entre essas duas dimensões, transformando o que era inicialmente estranho em algo inteligível, integrado, significativo e de uso pessoal.

A curiosidade e o desejo de compreender o funcionamento das coisas agem, nesse processo, como motores fundamentais. Eles permitem que o indivíduo desenvolva autonomia intelectual e produza seus próprios sentidos e interpretações. É igualmente importante reconhecer que ninguém aprende isoladamente e sozinho. O conhecimento é sempre intermediado por ferramentas, pela linguagem e pela interação social. Nesse ponto, a figura do professor emerge não como um simples transmissor de conteúdos, mas como um intermediador qualificado da relação entre o sujeito e o mundo do conhecimento.

Ao mesmo tempo, ninguém aprende por delegação. A aprendizagem é um processo individual, intelectivo e intransferível que exige esforço, persistência e disciplina intelectual. Apropriar-se de um conhecimento é sempre um ato singular. Cada leitor interpreta um texto de modo próprio, cada estudante reorganiza os conteúdos à sua maneira. Uma mesma passagem de um livro ou um mesmo acontecimento histórico pode gerar múltiplas interpretações, tantas quantos forem os sujeitos que se confrontam com ele.

O papel de quem ensina, portanto, não é transferir um saber pronto, mas organizar as condições necessárias para que o aprendente realize sua própria trajetória de descoberta. A aprendizagem manifesta-se quando ocorre uma mudança qualitativa na capacidade de agir, pensar e sentir — quando o sujeito passa a compreender a realidade de maneira mais profunda e a intervir nela de forma mais consciente.

É justamente nesse ponto que a onipresença das telas revela seu caráter problemático, sobretudo quando mal orientada pedagogicamente. Enquanto o trabalho humano de transformação da natureza exige persistência, resistência e resiliência diante do objeto, e o ato de estudar requer esforço intelectual e motivação para a conquista de novos saberes, o ambiente digital frequentemente oferece uma facilidade que anestesia essa disposição.

No caso da interpretação literária, por exemplo — atividade na qual o aprendente deveria confrontar o texto, tensionar seus significados e, em certo sentido, “brigar” com ele para expandir sua própria subjetividade — a tecnologia frequentemente entrega respostas prontas, resumos automáticos e estímulos fragmentados que desestimulam o mergulho reflexivo. Se a aprendizagem depende do engajamento ativo do sujeito, a interatividade superficial das telas pode funcionar como um simulacro de ação, dispensando o indivíduo do esforço de pensar. Sem essa tensão entre vontade e objeto, o processo de formação intelectual se empobrece.

Some-se a isso o visível despreparo de muitos professores para lidar pedagogicamente com essas novas ferramentas. As tecnologias da informação podem constituir recursos didáticos importantes, mas ainda carecem de um domínio metodológico consistente por parte de grande parcela do corpo docente. Muitos professores são profundamente competentes no trabalho com livros, textos e dispositivos tradicionais, mas não receberam formação adequada para integrar criticamente as tecnologias digitais ao processo educativo.

Para que essas ferramentas funcionem de fato como meios pedagógicos, e não como fins em si mesmas, é indispensável que os professores saibam utilizá-las para fortalecer sua função intermediadora, garantindo que a tecnologia sirva ao desenvolvimento da autonomia intelectual do estudante — e não à sua passividade.

Por outro lado, a simples presença do professor em sala de aula, por mais qualificado que seja, não garante uma aprendizagem socialmente relevante se estiver dissociado de motivações pedagógicas consistentes. O fator motivacional é decisivo tanto para docentes quanto para estudantes. Professores que conseguem criar bons motivos para aprender mobilizam o interesse e a curiosidade dos estudantes, transformando a sala de aula em um espaço de investigação e descoberta. A sala de aula não pode se converter em um auditório de entretenimento. Bons professores não são necessariamente os que contam as melhores piadas. São aqueles que conseguem mobilizar a inteligência e a imaginação dos estudantes, convidando-os a enfrentar problemas reais e intelectualmente exigentes

Os bons professores, portanto, são aqueles que dominam os conhecimentos de sua disciplina e, ao mesmo tempo, conseguem propor desafios intelectuais autênticos. Eles compreendem que a alegria do ensino e da aprendizagem reside justamente na superação de dificuldades, na conquista gradual de novos níveis de compreensão. Mas também é preciso reconhecer uma condição material frequentemente esquecida: bons professores exigem bons aparelhos escolares. Isso significa edificações seguras, limpas e bem equipadas; salários dignos; perspectivas de progressão na carreira; e reconhecimento social efetivo.

Em última análise, uma educação de qualidade socialmente referenciada não pode ser reduzida ao mero processamento de informações intermediado por algoritmos. O saber autêntico nasce do confronto entre o sujeito e o mundo, entre a consciência e a matéria, entre a pergunta e a resistência do objeto. Se aprender é a práxis pela qual o ser humano produz a si mesmo ao transformar o mundo, então o professor-intermediador ocupa uma posição decisiva nesse processo: ele é aquele que mantém acesa a chama da vontade de conhecer, impedindo que a técnica reduza o pensamento à simples operação automática.

A tecnologia deve, então, submeter-se à teleologia do desenvolvimento humano. Ela deve ser ferramenta, nunca substituto da inteligência; instrumento, jamais sujeito do processo educativo. O martelo pode ajudar a erguer a casa, mas não pode ocupar o lugar do artífice. Quando a técnica pretende assumir a função da mão que pensa, o conhecimento degrada-se em simples processamento de dados. Somente quando o recurso tecnológico é tensionado pela vontade do aprendente e orientado pela sensibilidade crítica do mestre é que a educação realiza sua promessa emancipadora: transformar a frieza do dado digital na vitalidade do pensamento crítico, e converter o esforço do aprendizado na alegria profunda da autotransformação humana.

 


Comentários