A Questão: consumo x trabalho
Há poucos dias, publiquei um texto no Facebook em que
delineava minha posição sobre o abismo que separa uma economia de consumo —
como a nossa — de uma economia que efetivamente valoriza o trabalho, a exemplo
do que se observa em nações como Japão e Alemanha. Afirmei, com convicção, que
seríamos substancialmente mais felizes se o eixo da nossa estrutura social se
deslocasse para o trabalho e, consequentemente, para o trabalhador: o
verdadeiro produtor de valor.
Essa afirmação gerou reações distintas; entre o apoio de uns
e a perplexidade de outros. No entanto, mantenho que a felicidade coletiva é
incompatível com uma sociedade cujas engrenagens giram primordialmente para
alimentar o fetichismo da mercadoria. Quando os "holofotes" sociais
são direcionados exclusivamente aos grandes consumidores — àqueles que ostentam
frotas de carros, marcas de luxo, jatinhos e o "descanso" em refúgios
paradisíacos —, o que se faz, por via de regra, é desmerecer o esforço criativo
e a dignidade de quem efetivamente produz. Nessa lógica invertida, quem
trabalha duro é visto como um "otário", enquanto um
"bandidinho" com muitas tatuagens no corpo e correntes de ouro
pesadas no pescoço desfruta de muito mais valor e prestígio — havendo,
inclusive, determinadas mídias que os promovem como celebridades nas primeiras
páginas.
Essa inversão de valores, no entanto, cobra um preço alto.
Ao relegar o trabalhador ao papel de coadjuvante invisível e glorificar o
consumo e o consumismo como o fim último da existência, são acelerados os
indicadores de violência e as crises existenciais de muita gente. Afinal, em
uma cultura onde o "ter" é a mais importante régua da dignidade e do
prestígio, qualquer oscilação econômica ou queda no poder de compra é sentida
não apenas como uma crise financeira, mas como um aniquilamento da própria
identidade do sujeito. Valorizar quem produz é, antes de tudo, um projeto de
saúde mental e paz social.
Em nossa sociedade consumista — na qual se mata por um tênis
de marca, saqueia-se o Estado ainda que no exercício de um simples cargo de
vereador para ostentar cabeças de gado zebu em latifúndios no Brasil profundo,
ou sequestram-se pessoas para se apropriar de milhões destinados a roupas das
marcas mais elitizadas e automóveis esportivos inacessíveis ao grande público
—, o prestígio é estritamente individualista. Pouco vale o bem-estar público ou
o avanço do conhecimento. Importa pouco o desenvolvimento intelectual, ou que o
indivíduo diga "ouvo" em vez de "ouço"; o que impera é a
acumulação, onde o "ter" agiganta-se sobre o "ser".
Nessas sociedades, a admiração e o respeito social raramente
recaem sobre o cientista, o professor, o artesão, o engenheiro ou o padeiro;
estes até correm o risco de serem esbofeteados por qualquer
"dê-cá-esta-palha!". Quando o consumo é o valor supremo, a própria
justiça distributiva deixa de ser um pilar central e as leis deixam de garantir
que aqueles que produzem a riqueza possam, efetivamente, usufruir dela. No
próprio Congresso Brasileiro, o celerado que conspira contra o Estado
Democrático de Direito tem mais defesas que o trabalhador em regime de 44 horas
semanais. Nas vias públicas, observa-se que o policial responsável pelo
patrulhamento frequentemente demonstra pouco ou nenhum respeito pelos
trabalhadores de baixa remuneração, mesmo quando estes apresentam sua carteira
de trabalho como comprovação de sua condição. Reverter essa lógica é o grande desafio
civilizatório que temos pela frente.
Educação: Da Formação para o Mercado à Formação
Omnilateral
Em uma sociedade que valoriza o trabalho, dois fatores
importantes tornam-se imperativos categóricos. Primeiro, a educação deixa de
ser um treinamento rápido para o consumo ou para ocupações precarizadas e passa
a ser vista como o desenvolvimento pleno das faculdades humanas. Seu objetivo
ultrapassa, por exemplo, a pobreza de expectativas expressas vagamente em nossa
Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que em seu artigo 2º limita-se ao
"preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho".
Uma educação de qualidade, com valor de uso e de troca
referenciada socialmente e integrada a uma base humanista sólida, liquida em
pouco tempo o abismo entre o trabalho manual e o intelectual. A
omnilateralidade formativa opera de forma que o educando seja, simultaneamente,
produtor e organizador da produção — um indivíduo que compreende o processo
produtivo em sua totalidade, e não apenas alguém que funcione como uma peça
alienada na engrenagem ou um reles trabalhador multifuncional. Ela permite
promover a formação integral do
indivíduo, admitindo que participe de todas as etapas do processo produtivo,
desde o planejamento até a execução e avaliação. Essa abordagem educativa
propicia que ele seja, simultaneamente, produtor e organizador da produção — um
sujeito capaz de compreender o processo produtivo em sua totalidade, não se
limitando a atuar como uma peça alienada na engrenagem. Por exemplo, em um
projeto escolar, o estudante não apenas executa tarefas, mas também planeja,
organiza e avalia todo o processo, compreendendo cada etapa da produção e
desenvolvendo habilidades para intervir criticamente em diferentes momentos do
trabalho.
Em segundo lugar, a valorização e o prestígio do professor
emergem como consequências naturais, na medida em que ele passa a ser
reconhecido como aquele que “produz” a própria capacidade de todos os outros
trabalhadores. Em um cenário no qual a economia pautada pelo consumo cede lugar
à valorização do trabalho, os investimentos na carreira docente e na
infraestrutura de pesquisa deixam de ser compreendidos como “gasto” para o
Estado e tornam-se investimento estratégico na base produtiva: a educação que,
de fato, qualifica o ser humano para a vida e para o trabalho.
Em última análise, a superação desse cenário exige mais do
que reformas econômicas; demanda a construção de uma nova hegemonia cultural.
Enquanto o 'senso comum' for ditado pelo fetiche da mercadoria e pela
espetacularização do ter, o trabalhador continuará a ser o estrangeiro de sua
própria criação. Gramsci nos ensinou que a dominação não se dá apenas pela
força, mas pelo consentimento moldado na cultura e no cotidiano. Portanto,
resgatar o prestígio do cientista, do professor e do artesão sobre o celerado
ostentador é, essencialmente, um ato de resistência intelectual.
A emancipação humana, como antecipou Marx, só será plena
quando o trabalho deixar de ser uma condenação alienante para se tornar a
afirmação da vida. Reverter a lógica do consumo é a aposta em uma sociedade
onde o livre desenvolvimento de cada um seja a condição para o livre
desenvolvimento de todos. Somente quando a produção estiver a serviço das
necessidades humanas, e não do lucro que alimenta o status individualista,
poderemos finalmente dizer que saímos da pré-história das relações sociais para
fundar uma civilização verdadeiramente humana.
Como citar:
GAMA, Zacarias Jaegger. COISAS DA EDUCAÇÃO. Disponível em: https://zjgama.blogspot.com/2026/05/o-prestigio-da-ostentacao-e-o-desprezo.html. Acesso em: 6 maio 2026
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