Zacarias Gama
O posicionamento do governador de Minas Gerais, Romeu Zema
(Partido Novo), em defesa do trabalho infantil reacendeu o debate público sobre
o tema. Muitos se chocaram ao ouvi-lo afirmar, explicitamente, que crianças e
adolescentes deveriam trabalhar desde cedo; segundo ele, foi aos 14 anos de
idade que iniciou sua trajetória como trabalhador ao lado do avô. Entretanto,
causa ainda mais espanto a quantidade de pessoas que passaram a defender
publicamente tal perspectiva, naturalizando uma prática historicamente
associada à precarização da infância, à evasão escolar e à perpetuação das
desigualdades sociais.
O Brasil, convém recordar, aprovou em 1990 o Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA), que traduz a Doutrina da Proteção Integral e
estabelece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos em condição
peculiar de desenvolvimento. Esse marco civilizatório criminalizou o emprego de
menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14. Ao optar por
esse caminho, a sociedade brasileira buscou interromper o ciclo histórico de
exploração que retira crianças e adolescentes da escola para o esforço
produtivo, alinhando o país às diretrizes da UNESCO e da OIT, que identificam o
trabalho precoce como um dos maiores entraves ao desenvolvimento humano.
A crítica central que o governador e seus seguidores parecem
desconhecer é que o trabalho infanto-juvenil não auxilia as famílias a
superarem a pobreza; ao contrário, ele reproduz a miséria. Jovens que ingressam
precocemente no universo da exploração do trabalho frequentemente abandonam os
estudos ou apresentam rendimento escolar deficitário, tornando-se adultos de
baixa qualificação e remuneração. Essa naturalização ignora que tais etapas são
fases críticas de maturação cognitiva e emocional.
Em perspectiva, os defensores dessa exploração emergem como
herdeiros do elitismo social brasileiro. Sua retórica ignora a desigualdade de
classe e a manutenção da dualidade educacional: enquanto os seus próprios
filhos permanecem em formação intelectual e técnica até a vida adulta, os
filhos das classes vulneráveis são condenados ao mercado de trabalho, colocando
seu desenvolvimento pleno em suspensão. Como as ciências sociais já
comprovaram, o trabalho nessa idade não educa; ele apenas apascenta o corpo ou,
como Foucault diria, cria "corpos dóceis" para a subalternidade e
para rotinas exaustivas, muitas vezes sob insalubridade e periculosidade — como
se vê no corte da cana ou nas carvoarias. Nossa elite, que ainda preserva
raízes no escravismo, nunca abriu mão da violência sobre o corpo nem de
processos disciplinares que, para homogeneizar, impõem dor e sofrimento.
Seguindo esta linha de raciocínio, chega-se à seguinte questão: quem deve ser
responsabilizado por esse debate atrasado que é recolocado em pauta? Os mais
apressados, com o imediatismo habitual e sem muitos escrúpulos,
responsabilizarão os "analfabetos políticos" da sociedade, repetindo
a mesma ladainha: "o povo brasileiro é assim, não evolui". Penso,
contudo, que a culpabilização imediata do povo é um equívoco, pois ele próprio
é vítima de um processo civilizatório profundamente elitista, desenhado para
manter a consciência política sob cerco.
Para compreendermos como essa "ladainha" de que o
povo não evolui se perpetua, é preciso recorrer a Antônio Gramsci e ao conceito
de Aparelhos de Hegemonia. A dominação da nossa elite não se dá apenas pela
coerção ou pela força do Estado, mas, primordialmente, pela construção de um
consenso fabricado no interior da sociedade civil. Escolas, igrejas, meios de
comunicação, sindicatos, partidos políticos e associações diversas incluindo as ONGs que funcionam como correias de transmissão ideológica
buscam convencer o explorado de que a sua exploração é, na verdade, uma
"oportunidade" ou um "valor moral".
Quando o governador exalta o trabalho precoce como formador
de caráter, ele está operando um ou mais desses aparelhos, tentando converter o trabalho
alienante — o tripalium que esmaga o corpo — em um "senso
comum" aceitável desde a infância. A hegemonia, aqui, cumpre seu papel mais perverso: faz
com que a vítima defenda os interesses de seu algoz, acreditando que a
interrupção da infância é mesmo o caminho para a dignidade, enquanto, na
verdade, é apenas a manutenção da sua subalternidade.
A resistência a esse projeto não se faz, portanto, com o
desprezo pelo "analfabetismo político" das massas, mas com a contra
hegemonia — com a educação que liberta e com o labor que, ao contrário do
trabalho compulsório, devolve ao ser humano a capacidade de criar, fotografar e
transformar a sua própria história.
Considerações Finais
A naturalização do trabalho precoce sob o verniz da
"formação de caráter" revela a face mais perversa da nossa herança
colonial: a tentativa de converter o tripalium em virtude e a submissão
em ética. Enquanto a elite reserva para si o domínio do labor — a atividade
livre, estética e intelectual que expande os horizontes do ser —, ela destina
às classes vulneráveis o trabalho alienado, aquele que não edifica, mas consome
a infância como combustível para a reprodução de um ciclo de miséria. O que se
pretende, em última análise, não é integrar o jovem à sociedade, mas capturá-lo
antes mesmo que ele possa desenvolver a consciência de sua própria condição,
abortando a potência da práxis em favor da docilidade produtiva.
Superar esse debate atrasado exige, portanto, reconhecer que
a hegemonia se nutre do silenciamento dos corpos e da expropriação do tempo de
formação. A verdadeira emancipação não se encontra no ingresso prematuro na
lógica da exploração do trabalho, mas na garantia de que cada criança tenha o direito de
não ser útil ao mercado, para que possa ser plena para si mesma. Só quando o
acesso ao conhecimento libertador e à criação — como o olhar sensível da fotografia ou o
rigor do pensamento crítico — deixar de ser um privilégio de classe e se tornar
um direito universal, é que poderemos enfim sepultar a lógica da senzala que
ainda teima em organizar a nossa vida pública.
Como citar em seu TCC
GAMA, Zacarias. O Trabalho Alienante como Virtude: A Elite Brasileira e a Captura da Infância. Coisas da Educação, [S. l.], 7 maio 2026. Disponível em ... : . Acesso em ...
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