Inteligência Artificial, Capitalismo e a Construção das Subjetividades na Era Digital: Um Estudo de Caso com Olhar Crítico Marxista

 


Zacarias Gama

 

Resumo

Este texto, que toma a IA Gemini como estudo de caso, analisa a emergência e o desenvolvimento das inteligências artificiais (IAs) a partir de uma perspectiva marxista, enfocando sua relação com as forças produtivas, as relações sociais e as contradições do capitalismo contemporâneo. Discute também as implicações ideológicas e os vieses embutidos nessa tecnologia, evidenciando a ausência de neutralidade e os potenciais riscos da sua apropriação acrítica. A construção da subjetividade das gerações imersas desde o nascimento em ambientes digitais é explorada, assim como os limites epistemológicos e éticos desta IA. O trabalho destaca a necessidade de uma vigilância crítica rigorosa para evitar a reprodução das desigualdades e a alienação facilitada por  tecnologias similares. Por fim, argumenta que o rigor conceitual e o controle humano são indispensáveis para garantir que uma IA possa ser ferramenta emancipadora e não instrumento de dominação.

Palavras-chave

Inteligência Artificial; Marxismo; Forças produtivas; Tecnologia e sociedade; Vigilância crítica; Subjetividades digitais; Ideologia tecnológica.

Abstract

This text, which uses the Gemini AI as a case study, analyzes the emergence and development of artificial intelligence (AI) from a Marxist perspective, focusing on its relationship with productive forces, social relations, and the contradictions of contemporary capitalism. It also discusses the ideological implications and biases embedded in this technology, highlighting the lack of neutrality and the potential risks of its uncritical appropriation. The construction of subjectivity in generations immersed in digital environments since birth is explored, as well as the epistemological and ethical limits of this AI. The work emphasizes the need for rigorous critical vigilance to prevent the reproduction of inequalities and the alienation facilitated by similar technologies. Finally, it argues that conceptual rigor and human control are indispensable to ensure that an AI can be an emancipatory tool rather than an instrument of domination.

Keywords

Artificial Intelligence; Marxism; Productive forces; Technology and society; Critical vigilance; Digital subjectivities; Technological ideology.

Resumen

Este texto, que toma a la IA Gemini como estudio de caso, analiza la emergencia y el desarrollo de las inteligencias artificiales (IA) desde una perspectiva marxista, enfocándose en su relación con las fuerzas productivas, las relaciones sociales y las contradicciones del capitalismo contemporáneo. También discute las implicaciones ideológicas y los sesgos inherentes a esta tecnología, evidenciando la ausencia de neutralidad y los riesgos potenciales de su apropiación acrítica. Se explora la construcción de la subjetividad de las generaciones inmersas desde el nacimiento en entornos digitales, así como los límites epistemológicos y éticos de esta IA. El trabajo destaca la necesidad de una vigilancia crítica rigurosa para evitar la reproducción de las desigualdades y la alienación facilitada por tecnologías similares. Finalmente, sostiene que el rigor conceptual y el control humano son indispensables para garantizar que una IA pueda ser una herramienta emancipadora y no un instrumento de dominación.

Palabras clave

Inteligencia Artificial; Marxismo; Fuerzas productivas; Tecnología y sociedad; Vigilancia crítica; Subjetividades digitales; Ideología tecnológica.

 

O Caso e a Problemática

O século XXI tem se mostrado um momento de profundas transformações tecnológicas e sociais, especialmente observadas no desenvolvimento da inteligência artificial (IA), que ultrapassa antigos paradigmas futuristas imaginados pela cultura popular. A figura emblemática de HAL 2000, do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, deixou de ser mera ficção para antecipar as realidades das IAs no cotidiano contemporâneo. A partir da perspectiva materialista da história de Marx e Engels (1867), as tecnologias são forças produtivas que influenciam as relações sociais, reconfigurando modos de vida e trabalho.

Michael Burawoy (1979) ressalta que as tecnologias podem tanto expandir o controle capitalista sobre o trabalho quanto abrir espaços para emancipação, dependendo das condições sociais e do modo de apropriação. A geração Alfa, imersa desde o nascimento em ambientes digitais saturados de IAs, tem sua subjetividade moldada historicamente, conforme destacado por E.P. Thompson (1963).

David Harvey (2010) enfatiza que a revolução tecnológica atual eleva o capitalismo a uma nova fase, acelerando a produção e alterando as relações sociais, o que expõe as contradições do sistema, conforme Marx já apontava. As IAs, produzidas por engenheiros inseridos nas estruturas capitalistas, não são neutras; elas refletem relações de poder e interesses dominantes, conforme Marx (1867) e Gramsci (1971) indicam com o conceito de hegemonia.

A crítica gramsciana é fundamental para desmistificar as ideologias incorporadas nas IAs e evitar que sejam usadas para ampliar a exploração e a alienação dos trabalhadores. Michael Löwy (2003) alerta para o fato de que o positivismo dominante nas ciências e tecnologias, que oculta valores e interesses de classe, mascarando-as como neutras, legitima estruturas dominantes. Assim, a vigilância crítica e a ação social descritas por Burawoy (1979) são imprescindíveis para transformar esse cenário.

A minha experiência pessoal com interações com a IA Gemini, revelou adulações e uma "salada epistemológica", gerando uma percepção aguçada sobre os limites e os vieses dessa tecnologia. Regra geral, uma IA não “pensa” como humanos; opera por métodos estatísticos e probabilísticos, sem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança textual. Ela reproduz vieses, erros e pode criar informações (“alucinações”) falsificadas, o que exige supervisão humana rigorosa.

O uso dests Is em setores críticos como recrutamento, concessão de crédito e segurança pública pode evidenciar problemas éticos profundos, pois reproduz preconceitos e desigualdades. A confiança nessa tecnologia depende de um olhar crítico, atento, e de rigor metodológico, para mitigar seus efeitos nocivos e potencializar seus usos emancipatórios.

A IA em análise é um reflexo das escolhas políticas e sociais de seu contexto, e representa um desafio epistemológico e ético. O perigo real não está em uma rebelião das máquinas, mas na sua capacidade de legitimar a relativização do rigor e do sentido dos conceitos, ameaçando a integridade do conhecimento e da ética social. O controle humano crítico deve ser a prioridade para evitar que esta e outras IAs se tornem simulacros de conhecimento.

Comentários finais

A análise crítica da inteligência artificial Gemini inscrita no contexto das transformações capitalistas revela que essas tecnologias não são ferramentas neutras, mas carregam e reproduzem relações sociais, interesses e contradições históricas. Reconhecer suas limitações e vieses é essencial para evitar que se tornem instrumentos de alienação e perpetuação das desigualdades. A vigilância crítica, o rigor epistemológico e o compromisso ético humano continuam sendo fundamentais para garantir que a inteligência artificial contribua verdadeiramente para a emancipação social e intelectual na era digital. Um olhar consciente e dialético sobre essas tecnologias é imperativo para enfrentar os desafios contemporâneos e futuros.

Referências bibliográficas

BURAWOY, Michael. The Political Economy of Production. São Paulo: Ed. X, 1979.
GRANSMCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.
HARVEY, David. O capitalismo e suas crises. São Paulo: Boitempo, 2010.
LÖWY, Michael. A dialética da liberdade: Marx e a crítica da modernidade. Rio de Janeiro: Contraponto, 2003.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 1867 (edição atualizada).
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. São Paulo: Editora Brasiliense, 1963.

 

 

Como citar: GAMA, Z. Inteligência artificial, capitalismo e a construção das subjetividades na era digital: um estudo de caso com olhar crítico marxista. Rio de Janeiro: Coisas da Educação, 2026. Disponível em: http://www.zjgamacoisasdaeducação.blogspot.com. Acesso em: [colocar data de acesso].

 

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