12.1.26

Vitórias raras e um imaginário em disputa

 


Zacarias Gama

Parabéns aos realizadores do filme O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e de Melhor Ator (Wagner Moura). Uma façanha notável, que se soma ao sucesso de Ainda Estou Aqui, premiado com o Oscar de Melhor Atriz para Fernanda Torres. São momentos raros em que o cinema brasileiro rompe o isolamento simbólico e se impõe no circuito internacional.

É justamente por isso que o feito impressiona — e preocupa. Tudo indica que essas conquistas não se repetirão com regularidade. O intervalo de vinte e oito anos entre as premiações de Central do Brasil (1998), Ainda Estou Aqui (2025) e O Agente Secreto (2026) não é casual: ele revela a ausência de um processo industrial contínuo de produção cinematográfica no Brasil, algo que existe de forma estruturada em Hollywood, Bollywood e Nollywood. Aqui, o sucesso ainda depende mais de exceções heroicas do que de política cultural consistente.

Essa descontinuidade tem consequências profundas. Ela impede a formação de um imaginário nacional estável, capaz de produzir coesão simbólica e sentimento de pertencimento. Quando esse imaginário é frágil ou inexistente, o espaço é rapidamente ocupado por narrativas externas. Não surpreende, portanto, que milhões de brasileiros consumam prioritariamente músicas, filmes, modas, produtos de beleza e eletrônicos estrangeiros — nem que cheguem ao ponto de desfraldar a bandeira do Tio Sam em plena Avenida Paulista no dia da Independência ou que usem a bandeira de Israel nos seus cultos dominicais.  

O cinema americano compreendeu há muito tempo que imaginação é poder político. Hollywood não apenas entretém: a meca mundial do cinema educa afetos, organiza valores e produz identidade coletiva. Sabe que sociedades se mantêm coesas não só por instituições, mas por histórias compartilhadas. Por isso, ao longo das décadas, construiu pedagogias muito claras. A Pedagogia do Ressentimento, visível nos filmes sobre o Vietnã protagonizados por Stallone e Chuck Norris, reescreveu uma derrota histórica como injustiça moral. Mais tarde, a Pedagogia da Exceção Permanente, presente em obras sobre o terrorismo e o Oriente Médio — como Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura e Falcão Negro em Perigo — normalizou a suspensão de direitos, a guerra contínua e a violência como linguagem legítima da política.

Enquanto isso, o cinema brasileiro, sem continuidade industrial e sem projeto pedagógico de longo prazo, aparece esporadicamente, brilha, é celebrado — e desaparece. Cada vitória internacional é comemorada como milagre, quando deveria ser tratada como parte de um processo regular. O preço dessa intermitência é alto: sem imagens próprias recorrentes, milhões de brasileiros passam a se imaginar a partir das imagens dos outros.

Celebrar O Agente Secreto é necessário. Mas mais necessário ainda é reconhecer que, sem enfrentar estruturalmente a produção, a circulação e a permanência do cinema brasileiro, continuaremos vivendo de exceções — enquanto outros seguem educando, com eficiência e método, o nosso imaginário.

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