Zacarias Gama
Parabéns aos realizadores do filme O Agente Secreto,
vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e de Melhor
Ator (Wagner Moura). Uma façanha notável, que se soma ao sucesso de Ainda Estou
Aqui, premiado com o Oscar de Melhor Atriz para Fernanda Torres. São momentos
raros em que o cinema brasileiro rompe o isolamento simbólico e se impõe no
circuito internacional.
É justamente por isso que o feito impressiona — e preocupa.
Tudo indica que essas conquistas não se repetirão com regularidade. O intervalo
de vinte e oito anos entre as premiações de Central do Brasil (1998), Ainda
Estou Aqui (2025) e O Agente Secreto (2026) não é casual: ele revela a ausência
de um processo industrial contínuo de produção cinematográfica no Brasil, algo
que existe de forma estruturada em Hollywood, Bollywood e Nollywood. Aqui, o
sucesso ainda depende mais de exceções heroicas do que de política cultural
consistente.
Essa descontinuidade tem consequências profundas. Ela impede
a formação de um imaginário nacional estável, capaz de produzir coesão
simbólica e sentimento de pertencimento. Quando esse imaginário é frágil ou
inexistente, o espaço é rapidamente ocupado por narrativas externas. Não
surpreende, portanto, que milhões de brasileiros consumam prioritariamente músicas,
filmes, modas, produtos de beleza e eletrônicos estrangeiros — nem que cheguem
ao ponto de desfraldar a bandeira do Tio Sam em plena Avenida Paulista no dia
da Independência ou que usem a bandeira de Israel nos seus cultos dominicais.
O cinema americano compreendeu há muito tempo que imaginação
é poder político. Hollywood não apenas entretém: a meca mundial do cinema educa
afetos, organiza valores e produz identidade coletiva. Sabe que sociedades se
mantêm coesas não só por instituições, mas por histórias compartilhadas. Por
isso, ao longo das décadas, construiu pedagogias muito claras. A Pedagogia do
Ressentimento, visível nos filmes sobre o Vietnã protagonizados por Stallone e Chuck
Norris, reescreveu uma derrota histórica como injustiça moral. Mais tarde, a Pedagogia
da Exceção Permanente, presente em obras sobre o terrorismo e o Oriente Médio —
como Guerra ao Terror, A Hora Mais Escura e Falcão Negro em Perigo — normalizou
a suspensão de direitos, a guerra contínua e a violência como linguagem
legítima da política.
Enquanto isso, o cinema brasileiro, sem continuidade
industrial e sem projeto pedagógico de longo prazo, aparece esporadicamente,
brilha, é celebrado — e desaparece. Cada vitória internacional é comemorada
como milagre, quando deveria ser tratada como parte de um processo regular. O
preço dessa intermitência é alto: sem imagens próprias recorrentes, milhões de
brasileiros passam a se imaginar a partir das imagens dos outros.
Celebrar O Agente Secreto é necessário. Mas mais necessário
ainda é reconhecer que, sem enfrentar estruturalmente a produção, a circulação
e a permanência do cinema brasileiro, continuaremos vivendo de exceções —
enquanto outros seguem educando, com eficiência e método, o nosso imaginário.
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