Vivemos um paradoxo político e ideológico na América Latina. Historicamente, os movimentos de esquerda se estabeleceram em oposição ferrenha ao ideário neoliberal. Essa divergência, consolidada por um vasto aparato intelectual, deveria servir como barreira inegociável contra a lógica do mercado. No entanto, o que observamos é a emergência de uma dissociação preocupante: o distanciamento entre a crítica formulada e a prática adotada. Este artigo explora como o pós-modernismo, agindo como a ideologia do neoliberalismo, infiltrou-se em esferas cruciais como a educação e as artes, esvaziando o potencial transformador dessas áreas e corroendo a resistência progressista.A rigor, a esquerda latino-americana sempre se colocou de forma radicalmente contrária ao neoliberalismo. A produção acadêmica dos anos 1990 em diante é prova disso: um vasto esforço intelectual de combate ao liberalismo e às suas múltiplas variações vindas de diferentes partes do mundo. No entanto, nesse percurso, percebe-se uma dissociação entre teoria e prática — visível em setores que, mesmo formulando críticas contundentes, acabaram por se deixar contaminar pelo próprio discurso que denunciavam.
A esquerda latino-americana sempre se posicionou, em tese, de forma radicalmente contrária ao neoliberalismo. A produção acadêmica a partir da década de 1990 é prova disso: um vasto esforço intelectual dedicado ao combate ao liberalismo e às suas múltiplas variações globais. No entanto, nesse percurso, estabeleceu-se uma dissociação entre o discurso e a prática. Essa ruptura se tornou visível em setores que, mesmo formulando críticas contundentes, acabaram por absorver e se deixar contaminar pelo próprio discurso que denunciavam.
A filósofa Marilena Chauí ofereceu um alerta crucial, ao caracterizar o pós-modernismo como a ideologia do neoliberalismo. Muitos ignoraram essa advertência, e o pensamento pós-moderno se disseminou como uma planta invasora (tiririca-do-brejo), sem resistência ideológica proporcional e com efeitos profundamente corrosivos no campo progressista.
Na educação, essa lógica se traduziu na proliferação de diplomas esvaziados de conteúdo. Sob a máxima neoliberal de que “o mercado é o grande juiz”, a seleção dos “melhores” deixou de ser uma responsabilidade do processo formativoe foi transferida integralmente ao mercado de trabalho. Como consequência, instaurou-se um darwinismo social perverso: reprovar estudantes passou a ser visto como prejuízo financeiro. Muitas instituições de ensino, sobretudo privadas, optaram por transferir a responsabilidade de filtrar a mediocridade para o futuro empregador.
O campo das artes também foi capturado por esse espírito. Sob o falso lema da “morte da criatividade” ou do fim das vanguardas, abriu-se espaço para produções destituídas de qualquer valor intrínseco ou talento mínimo. Como o teórico Fredric Jameson pontua, “nesse ambiente, as imagens, os signos, tudo parece dado a uma apreciação estética imediatista e presentista, sem nenhum projeto crítico amplo que lhes dê suporte e sentido”. Sem as estruturas críticas e a tensão estética do modernismo, o campo foi inundado pelo pastiche — na maioria das vezes, em sua forma mais efêmera e cínica.O diagnóstico é claro: a incapacidade de manter a coerência entre a teoria anti-neoliberal e a prática política resultou em uma capitulação silenciosa. Ao ignorar advertências sobre a natureza ideológica do pós-modernismo e permitir que a lógica do mercado permeasse a educação e as artes, a esquerda fragilizou-se internamente. O desafio atual não reside apenas em combater o neoliberalismo em sua dimensão econômica, mas, sobretudo, em purgar as influências ideológicas que permitiram o esvaziamento de conteúdo na formação e na cultura, restaurando o projeto crítico e estrutural que é essencial para qualquer transformação social efetiva.
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