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Mostrando postagens de novembro, 2025

Por uma nova escola pública: conhecimento, democracia e emancipação no século XXI

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  Zacarias Gama ex-Professor Titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Problematizando A crise contemporânea da escola não é um acidente conjuntural nem o resultado da suposta decadência moral dos estudantes ou da incompetência dos professores. Trata-se, antes, de uma crise do modelo de escola , constituído entre os séculos XVIII e XIX como aparelho disciplinar, organizador das hierarquias sociais e difusor da racionalidade necessária ao capitalismo industrial. O que assistimos hoje é o esgotamento histórico dessa instituição diante de transformações profundas no modo de produção, na cultura, nas tecnologias e nas formas de sociabilidade juvenil. A análise crítica da escola tradicional — inaugurada por Althusser, Bourdieu, Passeron, Bowles & Gintis e aprofundada por autores como Giroux, Apple, Enguita, Saviani e Bernstein — demonstra que, embora reprodutiva, a escola é também um espaço contraditório, permeado de disputas, resistências e possibilidades de reinvenç...

Progressão Parcial e Justiça Educacional: Análise Crítica do Decreto nº 49.994/2025 do Estado do Rio de Janeiro

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   Zacarias Gama Professor Titular Aposentado da UERJ Introdução Em sociedades que se pretendem democráticas, a escola pública tem a função civilizatória de assegurar o direito constitucional à aprendizagem e a continuidade das trajetórias educativas. No entanto, a persistência da reprovação e da evasão no Brasil revela uma contradição estrutural: o sistema educacional produz, ele próprio, parte significativa dos fracassos que deveria prevenir. Nesse cenário, o Decreto nº 49.994/2025, que institui a Política Estadual Excepcional de Progressão Parcial no Estado do Rio de Janeiro, emerge como esperançosa tentativa de reorganizar o fluxo escolar e reduzir distorções que historicamente penalizam estudantes de baixa renda, negros, periféricos e que já acumularam defasagens em sua trajetória. Partindo de uma perspectiva materialista e crítica, este texto analisa a política à luz de evidências internacionais, dados empíricos de pesquisas recentes e quinze teses de doutorado p...

A HEGEMONIA INUMANA DA ECONOMIA DIGITAL E OS DESAFIOS DEMOCRÁTICOS NO SÉCULO XXI

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  A digitalização integral da economia — desde a produção industrial até o consumo cotidiano mediado por plataformas — inaugura um novo regime de poder que ultrapassa os limites tradicionais do capitalismo industrial. O que está em curso não é apenas a substituição de máquinas por máquinas mais inteligentes, mas a constituição de um modo de produção algorítmico, baseado em decisões automatizadas, opacidades técnicas e novas formas de concentração de poder. Esse processo gera riscos democráticos inéditos: erosão do controle social, fragilização das instituições, formação de elites tecnológicas invisíveis e aprofundamento das desigualdades estruturais. No caso brasileiro, tais tensões são ampliadas pelo caráter incompleto de nosso processo democrático e pela fragilidade histórica das instituições de participação popular. Assim, compreender a emergência dessa hegemonia digital e suas contradições se torna urgente para pensar não apenas o futuro da economia, mas o futuro da própria...

Por que as Sociedades Não Mudam Apenas com Educação? A Pedagogia da Realidade

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  Em diversas sociedades africanas, a educação é concebida como uma responsabilidade distribuída por toda a comunidade. A aprendizagem infantil é entendida como um processo social que não se esgota na escola, mas se desenrola no convívio cotidiano, nos rituais comunitários, na circulação de saberes tradicionais e na participação coletiva em tarefas e cuidados. Essa concepção contrasta com narrativas contemporâneas que atribuem à escola um poder quase redentor, como se fosse capaz de, sozinha, alterar estruturas sociais profundamente enraizadas. Autores marxistas como Louis Althusser e Antonio Gramsci, embora com formulações distintas, convergem para uma compreensão semelhante: a escola integra um conjunto de aparelhos ideológicos que moldam subjetividades e reproduzem — ou contestam — as relações sociais de produção. Assim, a educação não constitui um agente autônomo de transformação, mas um componente de um sistema social mais amplo. O objetivo desta postagem é examinar esses ...

O Brasil Real e o Brasil Imaginário: Anatomia do Vira-Latismo

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  Ontem participei de uma roda de conversa que me deixou sinceramente alarmado com a lama rala em que muitas discussões sobre o Brasil ainda se chafurdam. É impressionante como proliferam opiniões que, embora declamadas com a convicção dos iluminados, não carregam um grama de evidência empírica. Tornou-se quase um vício nacional: criticar o país de forma automática, ideologizada, repetindo um pessimismo que não nasce da observação do mundo, mas de uma espécie de reflexo condicionado — um vira-latismo estrutural, persistente, herdado, acrítico, quase orgânico. Em vez de recorrer a dados, comparações internacionais ou análises mínimas, prefere-se reciclar frases prontas, como se pensar exigisse esforço demais e a ignorância oferecesse algum alívio moral. E de nada adianta que estrangeiros elogiem o país com base em fatos experienciados por eles — nossa capacidade de negar a realidade às vezes beira o cômico. Se eles reconhecem o SUS como um dos maiores sistemas públicos de saúde do...

Arquitetura Educacional e o Discurso da Potência Imperial no Brasil (1865-1875)

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                               Centro Cultural José Bonifácio (antiga Escola José Bonifácio) - Gamboa Esta postagem retoma e atualiza as reflexões iniciadas no artigo “Uma estratégia de unificação curricular: os estatutos das escolas públicas de instrução primária (Rio de Janeiro - 1865)”, publicado em 1999, escrito por mim (Zacarias Gama) e José Gonçalves Gondra e apresentado na 21ª Reunião Anual da ANPEd em 1998. Trinta anos após volto ao texto e procuro correlaciona o discurso legislativo presente no texto publicado com a materialidade arquitetônica do ensino público no Município Neutro. O objeto central são as fotografias que fiz de algumas das chamadas “Escolas do Imperador”, um conjunto que inclui o Colégio Estadual Amaro Cavalcanti, a Escola Municipal Gonçalves Dias, o Centro Cultural José Bonifácio (antiga Escola José Bonifácio) e o Colégio Pedro II (Campus Centro). Escola Municipal Gonçalves D...

A crise da qualidade na educação superior e o fetiche da mensuração

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  A divulgação do Ranking Universitário Folha (RUF) 2025 , que traz USP, Unicamp, UFRGS, UFMG e UFRJ nas primeiras posições, reacende o debate sobre o significado de “qualidade” na educação superior brasileira. A queda da UFRJ nos últimos anos, em particular, não pode ser lida como simples oscilação numérica, mas como expressão concreta do descaso dos poderes públicos diante de uma universidade de pesquisa do porte da UFRJ. A ausência de investimentos consistentes em ensino, pesquisa, extensão e inovação tem comprometido a capacidade institucional de sustentar sua missão pública e científica. 🎯 Rankings ou sintomas? Rankings como o RUF ou o QS World University Rankings se apresentam como medições objetivas de qualidade, mas o que realmente expressam é o grau de investimento estatal e o nível de precarização das condições de produção do conhecimento . Ao reduzir a complexidade da vida universitária a indicadores numéricos — publicações, citações, patentes, empregabilidade —...

Paulo Freire sem rótulos: um educador brasileiro da libertação

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  Paulo Freire é, sem dúvida, um dos maiores pensadores da educação do século XX. Sua obra atravessou fronteiras, inspirou movimentos populares e transformou práticas pedagógicas em todo o mundo. Mas com a notoriedade vieram também os rótulos — muitos deles imprecisos, outros francamente mal-intencionados. Este texto tem como objetivo restituir a integridade teórica de Freire, situando-o corretamente no campo do pensamento brasileiro, sem forçá-lo a encaixes ideológicos que obscurecem sua originalidade. Paulo Freire não foi comunista, nem marxista, nem gramsciano. Sua pedagogia não nasce da ortodoxia teórica, mas da experiência concreta do povo brasileiro, da escuta atenta das falas populares, da convivência com a pobreza e a exclusão. Seu método de alfabetização não visava apenas ensinar a ler palavras, mas a ler o mundo — e, a partir daí, transformá-lo. Freire emerge de um caldo cultural e político específico: a Igreja progressista, influenciada pela teologia da libertação, que v...