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Mostrando postagens com o rótulo #educacaocritica

Anotações sobre a crise da escola e a pedagogia do nosso tempo

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  Imagem gerada por IA Zacarias Gama [1] Recentemente escrevi dois textos, publicados neste blog, sobre a precariedade da educação pública brasileira, motivado pela constatação, nas redes sociais, de um analfabetismo que já não se limita à incapacidade de decifrar textos simples ou construir frases coerentes. Trata-se de um fenômeno mais amplo, que se expandiu para o campo da sensibilidade, da atenção e da interpretação do mundo social. É um analfabetismo ampliado, que opera menos pela ausência de informação e mais pela dificuldade de estabelecer mediações, compreender estruturas, sustentar a dúvida e tolerar a complexidade. Diante desse quadro, uma pergunta se impôs quase espontaneamente: quem está educando hoje o imaginário brasileiro — e por quais meios? A resposta que encontrei não veio da escola. Tampouco das universidades ou do campo intelectual organizado. O mundo acadêmico, embora produza conhecimento sofisticado sobre educação, cultura e sociedade, fala majoritaria...

Características sociológicas e culturais do bolsonarismo no Brasil contemporâneo

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O bolsonarismo que nega a ciência, acredita na terra plana, exalta o autoritarismo e sequer sabe distinguir democracia de ditadura é, em grande medida, um produto da educação brasileira. Negar isso seria ilusório. A própria Lei de Diretrizes e Bases (LDB), ao priorizar a formação de uma força de trabalho massiva para empregos de salário mínimo, conduziu o Estado a um descaso sistemático com a formação crítica e cidadã. Assim, multiplicam-se os “assassinatos” cotidianos da língua, os raciocínios rasteiros, a incapacidade de reconhecer o regime democrático e de diferenciar o período ditatorial vivido entre 1964 e 1985. Basta observar as postagens nas redes sociais para constatar a indigência intelectual e argumentativa que assola o país. Às vezes, imagino como seria uma sátira de nossa educação escrita por um humorista ácido como Rabelais: Gargântua e Pantagruel navegando pelas grotescas aventuras do sistema educacional brasileiro. Desde os anos 1980, educadores e cientistas da educaçã...

Verão, bermuda e imagem pública do professor - Debate sobre vestimenta docente e expectativas sociais: uma análise contemporânea

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  Claro que o calor está insuportável. Mas será que isso justifica dar aulas de bermuda? Vou assumir, talvez com certo conservadorismo, uma posição contrária. Basta pensar: por que o advogado não entra de bermuda no tribunal? Por que o médico não atende de bermuda? Por que o engenheiro, mesmo debaixo do sol no canteiro de obras, usa calça comprida? Não é apenas questão de estética. É também de simbolismo. Essas profissões, de grande valorização social, entendem que a imagem fala tanto quanto as palavras — e que a autoridade se constrói também pelo modo como nos apresentamos. Lembro-me de um texto que li anos atrás. O autor dizia que os professores ajudavam a cavar a própria desvalorização ao abandonar o “pedagogês” e, ao mesmo tempo, descuidar da aparência. Nos anos 70 e 80, não eram raros os professores de chinelo de pneu, cabelo desgrenhado, roupas surradas e bolsas de lã de lhama a tiracolo. Aquele ar alternativo, longe de inspirar respeito, transmitia descompromisso. Qual crian...

Cazuza e a escola do medo: da crítica literária ao desafio atual

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Ontem publiquei na minha página do Facebook uma lembrança de leitura da infância: o livro Cazuza , de Viriato Correia, que devorei lá pelos doze, treze anos. A recepção dos amigos foi ótima, quase entusiasmada. Para quem não conhece, a obra conta a história de um menino do interior do Maranhão e sua trajetória pelas escolas do lugarejo natal, depois em uma vila maior e, por fim, em São Luís, a capital do estado. Li com o mesmo prazer que tive mais tarde com O Ateneu , de Raul Pompeia. Histórias passadas em ambientes escolares sempre me fascinaram — pena que sejam raras na literatura brasileira. Na época, ao ler Cazuza , eu não tinha condições de perceber a crítica embutida àquela escola autoritária, marcada pelo que Paulo Freire mais tarde chamaria de “pedagogia bancária”. Viriato Correia pinta com tintas fortes a figura do professor João Ricardo, que conduzia sua classe multisseriada com mão de ferro e palmatória em riste. A escola funcionava em dois turnos: pela manhã, crianças de se...