Zacarias Gama
A aposentadoria tem dessas virtudes raras: ela devolve o tempo e, com ele, a possibilidade de observar o mundo sem a urgência do relógio. Foi num desses intervalos — entre um café e outro, navegando distraidamente pelas redes sociais — que me dei conta do tamanho do estrago. O analfabetismo, hoje, não se limita às letras. Nas redes sociais, sobretudo, ele se espalha como método, como linguagem, como forma de ver o mundo. E então a pergunta se impôs, quase sozinha: quem está educando o imaginário brasileiro?
A resposta não veio dos livros, nem das universidades, tampouco das escolas. O mundo acadêmico fala, sobretudo, para seus pares; o campo intelectual anda fragmentado, defensivo, ressentido. A esquerda cultural, outrora capaz de produzir uma gramática comum, parece hoje balbuciar dialetos incomunicáveis. A escola pública, por sua vez, abandonada e sobrecarregada, faz o que pode — e quase sempre pode pouco. Isso não a torna neutra nem inocente: mesmo fragilizada, a escola também produz consensos, silêncios e rotinas. O espaço pedagógico, esse lugar estratégico onde se forma a sensibilidade e o pensamento, ficou à deriva.
Alguém, no entanto, ocupou esse vazio. Com método, regularidade e eficiência. As plataformas digitais ensinam todos os dias, o dia inteiro. O algoritmo educa pelo hábito, pelo vício, pela repetição. Os influenciadores ensinam sem mediação, investidos de uma autoridade que não se explica nem se justifica. As igrejas midiáticas oferecem um mundo moralmente simples, confortável para quem já desistiu de compreender a complexidade. A televisão e o streaming normalizam tudo: comportamentos, afetos, desigualdades. A política populista digital, por fim, ensina a desconfiar, a odiar, a ressentir. Não de forma homogênea nem sem contradições — há usos críticos, fissuras e desvios —, mas com uma eficácia que nenhuma outra instância pedagógica hoje consegue disputar
O bicho está pegando porque essa pedagogia dispersa vem produzindo uma narrativa poderosa. Uma narrativa na qual o mundo é hostil, a competição é natural, as instituições atrapalham, a história é irrelevante e a razão virou artigo de luxo. Vive-se na sociedade da lacração, onde reagir é mais importante do que entender e onde o grito substitui o argumento.
O imaginário brasileiro, hoje, é moldado menos por projetos culturais do que por dispositivos de atenção. Aprende-se a sentir antes de pensar, a escolher lados antes de compreender estruturas, a consumir opiniões prontas como quem desliza o dedo na tela. Não escrevo isso como quem observa de fora. Também fui formado por instituições que acreditavam mais na força das ideias do que na disputa pelos afetos. Talvez tenhamos confundido esclarecimento com superioridade moral — e, nesse equívoco, cedido o terreno do imaginário. A complexidade cansa. A mediação irrita. A dúvida parece fraqueza.
O mais inquietante é perceber que, enquanto essa engrenagem gira em alta rotação, o campo progressista parece assistir a tudo com certo atraso — como quem ainda acredita que o debate será ganho no plano das ideias, quando o jogo já se deslocou para o terreno das emoções. A bola de neve cresce, rola, ganha velocidade. Não se trata de nostalgia nem de catastrofismo, mas de reconhecer que a formação do imaginário mudou de lugar — e que insistir nos velhos mapas não fará o território voltar. E o silêncio, nesse caso, não é prudência. É omissão pedagógica.