Zacarias Gama A aposentadoria tem dessas virtudes raras: ela devolve o tempo e, com ele, a possibilidade de observar o mundo sem a urgência do relógio. Foi num desses intervalos — entre um café e outro, navegando distraidamente pelas redes sociais — que me dei conta do tamanho do estrago. O analfabetismo, hoje, não se limita às letras. Nas redes sociais, sobretudo, ele se espalha como método, como linguagem, como forma de ver o mundo. E então a pergunta se impôs, quase sozinha: quem está educando o imaginário brasileiro? A resposta não veio dos livros, nem das universidades, tampouco das escolas. O mundo acadêmico fala, sobretudo, para seus pares; o campo intelectual anda fragmentado, defensivo, ressentido. A esquerda cultural, outrora capaz de produzir uma gramática comum, parece hoje balbuciar dialetos incomunicáveis. A escola pública, por sua vez, abandonada e sobrecarregada, faz o que pode — e quase sempre pode pouco. Isso não a torna neutra nem inocente: mesmo fragili...
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