Por uma Educação Antifascista Já
Zacarias Gama
É comum depositarmos muita esperança na educação como antídoto para todos os males. Para muitos, se os brasileiros fossem bem educados, o país estaria em outra posição no conjunto das nações.
Concordo que, em parte, estaríamos. De fato, a má qualidade da educação nos aprisiona em um círculo vicioso economicamente perverso: educação precária, baixos salários e baixa competitividade. Romper esse círculo exige, necessariamente, uma educação pública de qualidade.
Mas é preciso não atribuir à educação poderes que ela, sozinha, não possui. Uma educação de qualidade pode ampliar horizontes, desenvolver capacidades e criar melhores condições de vida, mas não nos livra automaticamente de entendimento político rasteiro, do machismo, da misoginia, da homofobia e de formas de autoritarismo e intolerância.
A história, aliás, oferece exemplos suficientes de sociedades altamente escolarizadas que não estiveram imunes à barbárie. Muitos dos oficiais da SS de Hitler foram criados em famílias estruturadas com bons níveis econômicos, estudaram em boas escolas e frequentaram algumas das melhores universidades alemãs. Entre eles havia homens com formação em História, Artes, Filosofia, Teologia e outras áreas das humanidades. A elevada escolarização, porém, não os impediu de aderir ao nazismo nem de participar de seus crimes.
Para jovens com ideias fascistas, portanto, não basta mais educação. É necessária outra educação, capaz de levá-los a questionar as próprias lentes através das quais enxergam a sociedade. Essas lentes são, quase sempre, as da ordem, da autoridade, da hierarquia, da seleção dos melhores e mais fortes. Não se trata simplesmente de acrescentar conhecimentos, mas de transformar o modo de compreender as relações entre os indivíduos e a sociedade.
Será imprescindível que deixem de enxergar a pobreza e o pobre como fracassos individuais e passem a compreendê-los no interior das contradições e dos movimentos do próprio modo de produção capitalista; que deixem de considerar o sucesso como resultado exclusivo do mérito pessoal, como se todos partissem das mesmas condições e disputassem a vida em igualdade de condições. Será preciso, enfim, uma educação que não apenas ensine a competir melhor dentro da sociedade, mas que forneça instrumentos para compreendê-la criticamente.
A questão, desta maneira, não é simplesmente saber quanto uma sociedade educa, mas para que e para qual compreensão do mundo ela educa, que tipo de cidadãos e cidadãs ela forma. A educação não se realiza no vazio. Ela acontece no interior de uma sociedade historicamente determinada e carrega consigo suas contradições, seus valores, suas hierarquias e suas formas de compreender o mundo e o ser humano. Pode formar excelentes engenheiros, médicos, juristas, historiadores e filósofos sem necessariamente formar sujeitos capazes de interrogar criticamente as relações sociais nas quais vivem.
O conhecimento, por si só, não contém uma moral emancipadora. Pode servir tanto para compreender o mundo quanto para administrá-lo tal como ele é; pode revelar as determinações que produzem a desigualdade ou fornecer argumentos sofisticados para justificá-la. A inteligência não constitui vacina contra a barbárie. A história demonstrou, de maneira terrível, que homens cultos podem colocar sua razão, sua ciência e sua competência técnica a serviço da destruição de outros homens.
Talvez esteja aí o limite de toda concepção iluminista ingênua da educação: imaginar que o esclarecimento conduz necessariamente à emancipação. Não conduz. Entre conhecer e emancipar-se existe uma mediação decisiva: a maneira como compreendemos nossa própria existência social e a existência do outro.
Uma educação verdadeiramente humanizadora e antifascista precisaria, por conseguinte, retirar do indivíduo o peso de explicar sozinho aquilo que é socialmente produzido. Precisaria mostrar que ninguém existe fora da história; que mérito e fracasso não nascem exclusivamente das virtudes ou insuficiências pessoais; que cada existência individual se realiza dentro de condições determinadas que não escolheu e de relações sociais que a antecedem.
Isso não significa apagar a responsabilidade individual. Significa compreendê-la concretamente. Os homens fazem escolhas, mas não escolhem livremente as circunstâncias nas quais são obrigados a escolher. A liberdade começa justamente quando somos capazes de reconhecer essas determinações e agir conscientemente sobre elas.
Talvez seja essa a educação de que necessitamos: não aquela que simplesmente acumula conhecimentos na cabeça dos homens e mulheres, mas aquela que lhes permite enxergar as mediações que ligam sua própria existência à existência dos outros. Uma educação capaz de substituir a pergunta moralista — “o que há de errado com esse indivíduo?” — por uma pergunta muito mais difícil: “que sociedade estamos produzindo para que tantas vidas sejam possíveis somente dessa maneira?”
Quando essa pergunta se torna possível, a educação deixa de ser apenas preparação para ocupar um lugar no mundo. Torna-se também possibilidade de consciência crítica desse mundo. E é precisamente aí, na passagem do simples conhecimento para a compreensão das relações que produzem nossa existência social, que a educação pode encontrar alguma força efetiva contra a barbárie.
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