Começou no Nordeste a Revolução da Educação Brasileira
Zacarias Gama
O monitoramento da qualidade da educação básica
brasileira é realizado pelo Ministério da Educação (MEC) desde 2005 por meio do
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O indicador foi desenvolvido
pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
(Inep), autarquia vinculada ao MEC, responsável por sua apuração e divulgação
em caráter bienal.
O Ideb constitui-se como um indicador sintético que
conjuga duas dimensões fundamentais para a aferição da qualidade educacional: o
desempenho acadêmico e o fluxo escolar. A primeira dimensão é obtida a partir
das médias dos testes de Língua Portuguesa e Matemática, aferidas pelo Sistema
de Avaliação da Educação Básica (Saeb). A segunda corresponde às taxas de
aprovação, reprovação e abandono, levantadas anualmente pelo Censo Escolar. O
produto entre o desempenho padronizado e o rendimento escolar resulta em um
índice que varia de 0 a 10, permitindo o acompanhamento evolutivo das redes de
ensino e o estabelecimento de metas intermediárias para o alcance do padrão de
qualidade educacional.
Quando nos detemos para analisar a evolução da
qualidade da educação na rede pública de ensino, verifica-se:
· Os
anos iniciais passaram de 3,6 para 6,1;
· Os
anos finais, de 3,2 para 5,0;
· O
ensino médio, de 3,1 para 4,3.
Antes de prosseguir, preciso chamar a atenção para dois
pontos:
· A qualidade
medida pelo IDEB melhora à medida que a série histórica avança, mas cai
conforme o estudante progride na escolarização. O ensino médio permanece como o
principal ponto crítico.
· É
preciso ainda interpretar 2021 com cautela: durante a pandemia, alterações
excepcionais nas taxas de aprovação afetaram o componente de fluxo escolar.
Além disso, o IDEB não mede sozinho toda a qualidade educacional; ele combina
desempenho no Saeb com aprovação escolar.
Dito isto, vamos em frente.
A melhoria do IDEB da rede pública brasileira é real,
sobretudo porque isto se revela nas médias dos testes de português e
matemática, ainda que seja desigual entre etapas da educação básica e
territórios. O fenômeno mais significativo é dado pelos estados nordestinos,
que, antes situados nas últimas posições, passaram a alcançar ou superar
estados mais ricos. Parece que eles deram início à Revolução da Qualidade da
Educação Brasileira.
O que explica tal melhoria nos índices da educação
básica?
A resposta a esta pergunta, em itálico, foi produzida
por IA; eu apenas supervisionei a resposta e fiz algumas correções, em texto
sem itálico.
1.
Universalização e maior permanência na
escola
A expansão das matrículas, a redução do abandono
(graças a programas do tipo Bolsa Família) e a diminuição da
repetência permitiram que mais crianças concluíssem as etapas escolares na
idade adequada. Isso eleva o componente de fluxo do IDEB e favorece a
continuidade da aprendizagem.
2.
Fundef e Fundeb
A criação do Fundef no governo de FHC despolitizou a
distribuição de recursos para a educação; sua transformação em Fundeb no
governo Lula manteve a distribuição baseada no custo-aluno. A redistribuição de
recursos sem interferência de políticos reduziu parte das desigualdades entre
redes municipais e estaduais. Municípios pobres passaram a contar com
financiamento mais estável para remuneração docente, transporte, alimentação,
material didático e manutenção escolar. O Fundeb permanente ampliou a complementação
federal e tornou sua distribuição mais orientada pela equidade, ainda
que haja muito desvio de seus recursos para outros setores da administração
estadual e municipal.
3.
Formação e profissionalização dos
professores
A ampliação da formação superior, da formação
continuada e do planejamento coletivo contribuiu para organizar o trabalho
pedagógico. Os melhores resultados aparecem quando essa formação está vinculada
às dificuldades concretas dos estudantes, e não apenas à concessão formal de
certificados. A formação de professores, contudo, ainda é bastante
claudicante. A falta de rigorosa fiscalização por parte do MEC facilita a
continuidade de instituições de formação docente com corpos docentes fracos,
apostilas aligeiradas e bibliografias de qualidade questionável. A
profissionalização também é um sonho distante.
4.
Currículos mais definidos
A explicitação do que deve ser ensinado em cada
ano permitiu maior continuidade entre escolas e turmas. Em alguns estados, o
currículo comum foi acompanhado por materiais estruturados, sequências
didáticas e orientação pedagógica às redes municipais.
5.
Avaliação sistemática da aprendizagem
O Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica)
e os sistemas estaduais passaram a revelar onde estavam as maiores
dificuldades. Estados mais bem-sucedidos e com vontade política não se
limitaram a produzir rankings: utilizaram os resultados para identificar
escolas e municípios que necessitavam de formação, material e assistência
técnica.
6.
Prioridade à alfabetização
A concentração de esforços nos primeiros anos
também produziu efeitos cumulativos. A criança que aprende a ler, escrever e
operar matematicamente na idade adequada encontra melhores condições para
avançar nas demais etapas. Isso ajuda a explicar por que a melhoria é muito
mais forte nos anos iniciais.
7.
Programas sociais e melhoria das condições
de vida
Programas de transferência de renda (Bolsa
Família), merenda escolar, transporte,
ampliação do acesso à saúde e erradicação do trabalho infantil também
interferem no desempenho. A escola não atua fora da sociedade: frequência,
aprendizagem e permanência dependem das condições materiais das famílias.
8.
Continuidade administrativa
Em estados com resultados consistentes, algumas
políticas educacionais atravessaram diferentes governos. Currículo, avaliação,
alfabetização, formação e cooperação municipal foram mantidos e aperfeiçoados,
evitando recomeços a cada eleição. Um dos males mais graves na
educação brasileira é exatamente este zigue-zague político, conforme foi
caracterizado por Luiz Antônio Cunha; prefeitos e governadores, por ataques
pessoais de vaidade, tendem a impedir a continuidade de boas e eficientes
políticas de seus antecessores, em especial quando pertencem a partidos
diferentes.
O avanço do Nordeste
Não existe uma realidade nordestina homogênea.
Bahia, Ceará, Pernambuco, Maranhão, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte,
Piauí e Alagoas apresentam trajetórias e resultados distintos. Ainda assim,
observa-se uma mudança importante: a pobreza regional deixou de ser tratada
como explicação suficiente para o baixo desempenho.
IDEB 2025 — rede pública dos estados do Nordeste
|
Estado |
Anos
iniciais |
Anos
finais |
Ensino
médio |
|
Alagoas |
6,3 |
5,1 |
4,2 |
|
Bahia |
5,4 |
4,2 |
3,8 |
|
Ceará |
6,8 |
5,6 |
4,5 |
|
Maranhão |
5,5 |
4,5 |
3,8 |
|
Paraíba |
5,9 |
4,7 |
4,1 |
|
Pernambuco |
5,8 |
4,9 |
4,7 |
|
Piauí |
6,1 |
5,2 |
4,9 |
|
Rio Grande do Norte |
5,2 |
4,2 |
3,9 |
|
Sergipe |
5,4 |
4,4 |
4,1 |
|
Brasil — rede pública |
6,1 |
5,0 |
4,3 |
O Ceará é o caso mais consolidado. O avanço conseguido
nos anos iniciais resulta da articulação de vários elementos:
•
cooperação permanente do governo estadual
com os municípios;
•
currículo e materiais pedagógicos comuns;
•
formação de professores e gestores;
•
avaliação estadual desde os anos 1990;
•
prioridade à alfabetização;
•
assistência técnica direcionada aos
municípios com mais dificuldades;
•
premiação acompanhada de cooperação entre
escolas;
•
distribuição de parcela do ICMS segundo
resultados educacionais, com critérios de melhoria e equidade.
Estudos sobre a experiência cearense encontraram
efeitos positivos do mecanismo de redistribuição do ICMS sobre a aprendizagem.
Mas o incentivo financeiro funciona dentro de uma estrutura pública mais ampla:
avaliação, apoio pedagógico, capacidade administrativa e cooperação federativa.
Isoladamente, a competição por resultados dificilmente produziria o mesmo
efeito (Ipea
e Banco
Mundial).
O Piauí também merece atenção especial: em 2025, sua
rede pública alcançou 4,9 no ensino médio, acima da média nacional de 4,3.
Entre 2023 e 2025, avançou 0,6 ponto nessa etapa. Isso sugere que a melhora
nordestina já não está restrita à alfabetização e aos anos iniciais (Inep
— Piauí).
Alagoas avançou de 5,7 para 6,3 nos anos iniciais da
rede pública entre 2023 e 2025. Nesse período, houve também crescimento das
proficiências do Saeb, o que indica que o aumento do IDEB não decorreu
exclusivamente da aprovação escolar (Inep
— Alagoas).
Pernambuco mantém desempenho destacado no ensino
médio, associado historicamente à expansão das escolas de tempo integral, ao
acompanhamento das escolas e à organização da rede estadual. Em 2025, chegou a
4,7, também acima da média pública nacional (Inep
— Pernambuco).
O significado histórico
Esses resultados contestam duas explicações
simplificadoras: a de que o baixo desempenho escolar seria consequência natural
da pobreza e a de que redes públicas pobres estariam condenadas ao fracasso.
Diversos relatórios do PISA sempre deixaram claro que o
baixo desempenho não é consequência da pobreza: um dos relatórios afirma que
estudantes pobres de Macau tiveram resultados muito melhores que estudantes de
status socioeconômico superior quando receberam atenção adequada dos seus
professores. Estados nordestinos melhoraram quando construíram
capacidade pública, coordenaram redes municipais, apoiaram professores e
mantiveram políticas por períodos prolongados.
Esta verdadeira Revolução Educacional em curso no
Nordeste não resulta de um “milagre nordestino ou do “Padim Ciço”, mas
de trabalho institucional acumulado concretamente. Também não se deve
transformar o IDEB em sinônimo absoluto de qualidade. Ele mede apenas a
aprendizagem em português e matemática combinada ao fluxo escolar.
A conclusão mais segura é esta: a educação pública
brasileira melhorou, está melhorando, e parte expressiva dessa melhoria ocorreu no
Nordeste; porém os avanços são mais sólidos onde a elevação do IDEB corresponde
também ao aumento efetivo da aprendizagem e à redução das desigualdades entre
escolas e municípios.
Outros argumentos podem nos ajudar a atestar a melhoria
da educação no Nordeste e, por conseguinte, no Brasil.
O principal deles é, sem dúvida, o desempenho dos
estudantes desta região em diferentes competições nacionais de conhecimento e
na redação do Enem. No ano passado, 2025, das dez redações que obtiveram a nota
mil, seis eram de jovens da Bahia,
Ceará, Pernambuco e Alagoas. Este resultado é muito expressivo porque revela o
domínio de diversas competências e habilidades (nomenclatura favorita dos
neoliberais em educação): domínio da norma, interpretação, organização lógica,
repertório e construção de argumentos. Os programas de gerenciamento da
educação (tipo Toyotismo educacional), de tão focados em metas e produtividade
docente, são incapazes de desenvolver tais competências e habilidades por meio
de pedagogias mecanizadas e elementares.
Este resultado, no entanto, exige cautela: para
considerar o NE como centro de excelência educacional, impõe-se considerar o
conjunto de escolas públicas e particulares. Com isto, o desempenho na redação
do Enem coloca em evidência o potencial educacional da região, mas não se
traduz em prova concreta da melhoria da escola pública.
Outro argumento pode ser construído quando se observa o
desempenho de estudantes do NE em competições nacionais e internacionais de
conhecimento. Eles conquistam medalhas com regularidade na Olimpíada Brasileira
de Matemática das Escolas Públicas, na Olimpíada Nacional de
Ciências, nas competições de astronomia, química, física, robótica e história.
Na Olimpíada Nacional em História do Brasil, organizada pela Unicamp, o
Nordeste recebeu o maior número de medalhas tanto em 2023 quanto em 2024. Em 2025,
somente os estudantes da rede estadual do Piauí conquistaram 298 medalhas na
Olimpíada Nacional de Ciências. Esses resultados alcançam escolas situadas fora
das capitais e revelam competências e habilidades que abrangem raciocínio
matemático, investigação científica, leitura documental, trabalho coletivo e
interpretação histórica.
O significado desses resultados não está apenas na
quantidade de medalhas ou de redações excepcionais. Olimpíadas e notas máximas
são indicadores seletivos: revelam os estudantes de melhor desempenho e não
descrevem, por si sós, a aprendizagem média da população escolar. Além disso,
parte importante das redações nota mil procede da rede particular, como ocorreu
no Enem de 2024, quando apenas uma das doze notas máximas nacionais veio de
escola pública. Seria incorreto, portanto, utilizar casos individuais como prova
suficiente da qualidade de toda a rede pública nordestina.
A força dos argumentos surge da convergência entre
indicadores diferentes. O IDEB mostra a elevação do desempenho médio e do fluxo
escolar; o Saeb de 2025 registra crescimento das proficiências em língua
portuguesa e matemática; as olimpíadas revelam a formação de núcleos de
excelência intelectual; e as redações do Enem demonstram que estudantes da
região podem atingir o nível máximo de competência e habilidade escritas
exigido nacionalmente. Cada evidência possui limites, mas, consideradas em
conjunto, elas mostram que a melhoria não pode ser reduzida a uma manipulação
das taxas de aprovação.
Essa convergência também enfraquece o antigo
preconceito segundo o qual a pobreza regional determinaria inevitavelmente uma
educação de baixa qualidade. Estados como Ceará, Piauí, Alagoas e Pernambuco
demonstram que condições socioeconômicas adversas impõem obstáculos reais, mas
não constituem destino imutável. A continuidade das políticas, a cooperação
entre União, estados e municípios, a formação dos professores, a prioridade
dada à alfabetização, o acompanhamento da aprendizagem, a expansão das escolas
de tempo integral e a interiorização das instituições federais ampliaram as
possibilidades educacionais da região.
Não se deve proclamar que os problemas foram
resolvidos. Persistem desigualdades entre estados, municípios, zonas urbanas e
rurais, escolas públicas e particulares e diferentes grupos sociais. Bahia,
Maranhão e Rio Grande do Norte, por exemplo, ainda apresentam resultados
inferiores à média nacional em várias etapas. Entretanto, já não é intelectualmente
honesto representar a educação nordestina apenas pela carência e pelo atraso.
Os indicadores médios melhoraram, as proficiências avançaram e os estudantes da
região passaram a ocupar posições de destaque em avaliações e competições nacionais.
O Nordeste não apenas ampliou o acesso à escola: em diversos lugares, começou a
transformar acesso em aprendizagem e aprendizagem em excelência. Começou
uma revolução educacional.
Eu e a IA não poderíamos encerrar este texto sem alusão
à indispensável valorização do magistério.
Fechando este texto, é possível afirmar que a melhoria
da educação nordestina foi acompanhada da valorização do magistério,
impulsionada pelo Fundeb, pelo piso nacional, pela ampliação da formação
superior e pela organização de planos de carreira. Essa valorização, ainda que
não seja generalizada, contribuiu para tornar mais estável e profissional o
trabalho docente, assim como para atrair jovens para a carreira. Frisando bem:
os efeitos da melhoria da educação no Nordeste foram maiores onde houve a
combinação de melhor remuneração, melhor plano de carreira e melhores condições
de trabalho com políticas pedagógicas contínuas e mais bem planejadas.
Fontes: Inep
— IDEB e Saeb 2025, CNPq
— Nordeste lidera as medalhas na Olimpíada Nacional em História de 2024,
MCTI
— resultado da Olimpíada de História de 2023 e OBMEP — premiação nacional.
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