A ESCOLA NÃO É UMA FÁBRICA DE HOMENS-ROBÔS. SE QUEREM ROBÔS, CONSTRUAM FÁBRICAS DE ROBÕS

 



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Texto desenvolvido a partir de concepções e argumentos minhas, com colaboração do ChatGPT (OpenAI) na elaboração e organização da redação. 2026

A escola, independentemente das formas que assumiu ao longo da história, é uma das mais importantes instituições criadas pela humanidade. Sua função social não se limita a ensinar a ler, escrever, calcular ou preparar indivíduos para exercer profissões. Sua finalidade desde antes de Sócrates é muito mais ampla e profunda: proporcionar aos homens e às mulheres o acesso ao conhecimento historicamente produzido, permitindo-lhes ultrapassar os limites de sua experiência imediata, desenvolver suas capacidades intelectuais, ampliar sua consciência do mundo e elevar-se espiritualmente. Espiritualmente, aqui, não tem qualquer significado religioso ou transcendental. Refere-se ao desenvolvimento das capacidades propriamente humanas de pensar, criar, imaginar, sentir, compreender, julgar e transformar conscientemente a realidade.

O ser humano é parte da natureza e jamais deixa de sê-lo. Entretanto, diferentemente dos demais animais, não se limita a adaptar-se às condições naturais de sua existência. Por meio do trabalho, da linguagem, da ciência, da arte e das relações sociais, diferentemente de todos os demais seres vivos, a cada dia de sua existência, transforma a natureza e, nesse mesmo processo, transforma a si próprio. Produz cultura, constrói conhecimentos, desenvolve valores, cria instituições e amplia continuamente suas possibilidades de existência: produzir e reproduzir as condições materiais de sua existência, reprodução da espécie e evolução espiritual. A humanidade não é, portanto, uma condição simplesmente dada pela natureza, mas uma construção histórica e social. É nesse sentido que podemos falar em superação da condição meramente animal: não como negação de nossa natureza biológica, mas como desenvolvimento de capacidades que nos permitem ir muito além da satisfação imediata das necessidades de sobrevivência.

A escola desempenha um papel fundamental nesse processo de humanização. Ao colocar as novas gerações em contato com a filosofia, a história, a matemática, as ciências naturais, a literatura, as artes e as demais formas elaboradas de conhecimento, permite que cada indivíduo se aproprie de conquistas intelectuais que a humanidade levou séculos para produzir. Uma criança que aprende a compreender o movimento dos astros, a interpretar uma obra literária, a reconhecer as contradições da sociedade em que vive ou a apreciar uma composição musical amplia extraordinariamente sua relação com o mundo. Seu universo deixa de estar limitado ao que vê, experimenta ou necessita imediatamente.

Essa elevação espiritual é uma conquista material e histórica. Não nasce de alguma essência misteriosa, mas da apropriação da cultura produzida socialmente. A escola, quando cumpre plenamente sua função, possibilita que o indivíduo ultrapasse o senso comum, desenvolva o pensamento abstrato, estabeleça relações entre fenômenos aparentemente isolados e compreenda a realidade para além de suas manifestações superficiais. Em outras palavras, contribui para a formação de sujeitos capazes de pensar por conta própria, sem que isso signifique pensar isoladamente das relações sociais que os constituem.

Uma escola de qualidade socialmente referenciada não pode ser definida exclusivamente pelos resultados obtidos em avaliações padronizadas, pelos índices de aprovação ou pela empregabilidade de seus egressos. Sua qualidade deve ser reconhecida também pela capacidade de descortinar horizontes, ampliar as possibilidades de existência e proporcionar aos jovens experiências intelectuais, culturais, científicas, artísticas e sociais que dificilmente encontrariam fora dela. A escola é uma instituição atravessada por múltiplas determinações históricas, econômicas, políticas e culturais e, ao mesmo tempo, participa da formação de novas maneiras de pensar, sentir e agir. Sua influência sobre os jovens ultrapassa amplamente os conteúdos curriculares e os limites físicos da sala de aula.

É nesse sentido que se revela profundamente reducionista a tentativa dos defensores da Escola Sem Partido de responsabilizar os professores pela suposta ideologização do processo pedagógico. A educação nunca foi, nem poderia ser, uma atividade ideologicamente neutra. Toda prática educativa envolve escolhas: o que ensinar, por que ensinar, como ensinar, para quem ensinar e com quais finalidades sociais. Essas escolhas expressam concepções de ser humano, sociedade, conhecimento e futuro. Mesmo quando o professor se limita a transmitir conteúdos científicos, participa de um processo social que atribui significados ao conhecimento e à sua utilização. A ideologia não ingressa na escola simplesmente pela vontade de professores interessados em doutrinar estudantes. Ela atravessa a própria organização da instituição escolar, suas relações sociais, seus currículos e suas finalidades.

Uma escola comprometida com a formação humana integral é, nesse sentido, também ideologicamente orientada. Não porque deva impor aos estudantes uma doutrina política ou partidária, mas porque assume conscientemente finalidades sociais: a emancipação humana, a liberdade intelectual, a igualdade de direitos, o desenvolvimento da consciência crítica e a superação das condições que limitam a existência humana. Trata-se de uma orientação emancipadora que, para ser coerente com seus próprios princípios, deve preservar o direito ao questionamento, à divergência e ao exame racional de todas as ideias, inclusive daquelas que fundamentam sua própria concepção pedagógica.

A contradição do programa educacional apresentado pelo Partido Liberal, do candidato Flávio Bolsonaro à Presidência da República, aparece precisamente nesse ponto. Ao condenar a chamada ideologização da escola, não propõe uma educação livre de ideologia. Propõe substituir uma orientação pedagógica comprometida com a formação crítica e a emancipação humana por outra, centrada na funcionalidade técnica, na disciplina, na adaptação e no atendimento às demandas empresariais imediatas. O que se apresenta como desideologização é, na realidade, uma redefinição das finalidades sociais da educação.

A escola assim concebida pelo bolsonarismo tende a valorizar o estudante menos por suas possibilidades de desenvolvimento humano do que por sua futura utilidade econômica. Em lugar de descortinar horizontes, a miopia bolsonarista delimita-os segundo as necessidades do mercado. Em lugar de desenvolver amplamente a capacidade de compreender e transformar a realidade, privilegia competências e habilidades operacionais destinadas à execução de tarefas. O ideal de formação humana cede espaço à produção de indivíduos tecnicamente funcionais, dotados das competências e habilidades esperadas de homens-robôs: executar, adaptar-se, responder às demandas e atualizar continuamente suas habilidades para continuar economicamente aproveitáveis.

A questão decisiva, portanto, não consiste em escolher entre uma escola ideológica e outra supostamente neutra. Consiste em reconhecer que toda educação possui finalidades sociais e perguntar a quais interesses históricos essas finalidades correspondem. Uma escola pode contribuir para que os indivíduos compreendam criticamente as relações sociais e ampliem suas possibilidades de emancipação. Pode também privilegiar sua adaptação às relações existentes, apresentando-as como naturais, inevitáveis e insuperáveis. Ambas são socialmente orientadas. A diferença está no projeto de formação humana que cada uma realiza.

É precisamente essa concepção de escola emancipadora que se encontra ameaçada por programas educacionais de orientação utilitarista e imediatista, como aquele que afirma que estudar deve levar ao emprego, e não a um diploma sem uso. A frase parece sensata, sobretudo em uma sociedade marcada pelo desemprego e pela insegurança econômica. Entretanto, por trás de sua aparente razoabilidade, esconde-se uma redução das finalidades da educação. O valor do conhecimento passa a ser medido por sua utilidade imediata para o mercado de trabalho. A escola deixa de ser concebida como instituição de formação humana e passa a funcionar como fornecedora de trabalhadores ajustados às necessidades das empresas.

Nessa perspectiva, não importa tanto formar homens e mulheres capazes de compreender a sociedade, mas indivíduos que dominem competências previamente definidas pelo setor produtivo. A filosofia, a história, a sociologia, a literatura e as artes tendem a perder importância diante das habilidades consideradas economicamente rentáveis. O pensamento crítico pode ser tolerado desde que não questione os fundamentos da organização social. A criatividade passa a ser valorizada principalmente quando produz inovação comercializável. A própria ciência corre o risco de ser julgada menos por sua contribuição ao conhecimento humano do que por sua capacidade de gerar produtos e lucros.

É a transformação da escola numa fábrica de homens-robôs: indivíduos treinados para executar tarefas, responder a comandos, adaptar-se a procedimentos e atender às demandas de um mercado que não controlam. Não se pretende necessariamente eliminar sua inteligência, mas orientá-la para finalidades exteriores a eles próprios. A formação deixa de ter como horizonte o desenvolvimento integral do ser humano e passa a privilegiar sua funcionalidade econômica.

Há, contudo, uma contradição ainda mais profunda nessa proposta do candidato Flávio Bolsonaro. O desenvolvimento das forças produtivas, impulsionado pela automação, pela robotização e pela inteligência artificial, transforma continuamente os processos de trabalho. Profissões desaparecem, ocupações são reorganizadas, conhecimentos técnicos tornam-se obsoletos e competências antes valorizadas perdem sua utilidade econômica. Quanto mais rapidamente se desenvolvem as forças produtivas, mais precária se torna uma educação organizada exclusivamente para atender às necessidades imediatas do mercado.

O trabalhador formado apenas para executar determinadas tarefas pode descobrir, poucos anos depois, que suas habilidades já não são necessárias. A máquina ou o sistema automatizado passou a realizá-las de maneira mais rápida e barata. Aquilo que lhe foi apresentado como garantia de empregabilidade converte-se em instrumento de sua exclusão. E, por não ter recebido uma formação intelectual suficientemente ampla, encontra maiores dificuldades para compreender as transformações em curso, apropriar-se de novos conhecimentos e reconstruir sua trajetória profissional.

Surge, assim, um paradoxo extraordinário: quanto mais avançadas se tornam as forças produtivas, mais anacrônica se revela uma escola organizada para satisfazer suas necessidades imediatas. O próprio desenvolvimento tecnológico exige capacidades de abstração, compreensão científica, criatividade e pensamento crítico que não podem ser reduzidas ao treinamento para ocupações específicas. Uma formação estreitamente profissionalizante pode preparar o indivíduo para um emprego que está desaparecendo, mas não necessariamente para compreender e enfrentar o mundo que está surgindo.

Isso não significa desprezar a educação profissional ou negar a importância do trabalho. Pelo contrário. O trabalho constitui uma dimensão fundamental da existência humana e da própria produção histórica da humanidade. A questão é distinguir uma formação que permita compreender os fundamentos científicos, tecnológicos, históricos e sociais do trabalho daquela que simplesmente adestra indivíduos para executar funções determinadas pelo mercado. Uma coisa é formar trabalhadores capazes de dominar intelectualmente os processos produtivos; outra, muito diferente, é produzir executores de tarefas cuja utilidade será decidida pelas oscilações da economia.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando consideramos que o desenvolvimento das forças produtivas deveria ampliar as possibilidades de liberdade humana. O aumento da produtividade, a automação de tarefas repetitivas e a expansão do conhecimento científico poderiam reduzir o tempo de trabalho necessário à sobrevivência e ampliar o tempo disponível para a cultura, a convivência, a criação artística, a participação política e o desenvolvimento intelectual. Entretanto, sob determinadas relações sociais de produção, os mesmos avanços que poderiam libertar os indivíduos do trabalho penoso convertem-se em fontes de desemprego, insegurança e exclusão.

Não é a tecnologia, por si mesma, que condena trabalhadores à inutilidade social. São as relações sociais nas quais ela é desenvolvida e utilizada que determinam quem se apropria de seus benefícios e quem suporta suas consequências. Uma escola verdadeiramente comprometida com a formação humana precisa oferecer conhecimentos que permitam compreender também essa contradição.

Por isso, defender uma escola humanizadora e emancipadora não significa propor uma instituição desligada da vida material ou indiferente às necessidades econômicas. Significa recusar que essas necessidades, especialmente quando definidas pelos interesses imediatos do mercado, determinem os limites da formação humana. A educação deve preparar para o trabalho, mas não pode reduzir a existência humana ao trabalho assalariado; parafraseado o apóstolo Marcos pode-se que o trabalho é para o homem, mas o homem não é para o trabalho.  Deve ensinar técnicas, mas também seus fundamentos científicos. Deve desenvolver competências, mas igualmente a capacidade de questionar suas finalidades. Deve proporcionar meios de sobrevivência, sem abandonar a formação de indivíduos capazes de viver plenamente e fruir as delícias do Planeta.

Uma sociedade que dispõe de conhecimentos científicos e recursos tecnológicos cada vez mais extraordinários não deveria contentar-se com uma escola destinada a produzir trabalhadores descartáveis. Deveria exigir uma educação capaz de socializar as conquistas da humanidade, desenvolver integralmente as capacidades humanas e oferecer instrumentos intelectuais para compreender e transformar as relações sociais.

A grandeza da escola está precisamente em permitir que homens e mulheres sejam muito mais do que aquilo que o mercado necessita que sejam. Está em proporcionar-lhes a possibilidade de ultrapassar a existência imediata, compreender o mundo em sua complexidade, apropriar-se da riqueza cultural produzida pelas gerações anteriores e participar conscientemente da construção da história.

Uma escola que apenas ensina a servir às necessidades presentes do mercado prepara indivíduos para um futuro que pode deixar de existir. Uma escola que ensina a pensar, conhecer, criar e compreender as transformações da realidade prepara seres humanos para enfrentar futuros ainda desconhecidos.

A primeira fabrica trabalhadores adaptáveis e potencialmente descartáveis. A segunda contribui para formar sujeitos históricos.

É esta segunda escola que merece ser defendida: não uma fábrica de homens-robôs, mas uma instituição dedicada à humanização dos seres humanos.


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