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A Dialética do Olhar ou como curtir uma foto

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  Observei atentamente como as pessoas olharam as fotografias que publiquei no Vol. 3 dos Artistas Unidos (Galeria Zagut, 2025, com curadoria de Isabela Simões e Augusto Herkenhoff). Poucas se detiveram em um pequeno momento de fruição; a maioria olhou como quem está à janela de um trem de alta velocidade: captando a paisagem, mas incapaz de contemplar o campo, as montanhas ou os vilarejos ao longe. Outras portaram-se como se estivessem diante de um painel publicitário qualquer. Em todas, percebia-se um distanciamento típico de quem não quer se deixar envolver ou transparecer emoção. Poderiam estar diante de uma coleção de fotos de um descarrilamento com várias vítimas, mas o olhar delas não seria diferente do de quem contempla um gol num jogo de garçons, no Aterro do Flamengo, às três da madrugada. Talvez essas pessoas não saibam mais 'ver' uma foto, perdidas em olhares blasé e modos de ver saturados por uma sociedade imagética que consome tudo, mas não absorve nada. É o q...

Racismo educacional e a condenação da nossa juventude

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        Zacarias Gama Nesta semana de Carnaval, escrevi um texto chamando a atenção para o racismo ambiental. Denunciei o racismo das autoridades governamentais – federais, estaduais e municipais – que menosprezam as áreas onde residem os mais vulneráveis — os pretos e pobres deste país. É chocante o abismo de atenção dispensada: por exemplo, enquanto na Zona Sul ou Sudoeste do Rio de Janeiro o rompimento de uma tubulação d’água é consertado de imediato, na Zona Norte o mesmo problema pode levar dias para ser corrigido. Essa gestão da escassez para uns e da eficiência para outros é a assinatura de um Estado racista. As reflexões que fiz sobre essa cidade segregada e partida levaram-me, naturalmente, ao meu campo de estudo mais amplo: o educacional. É aqui que precisamos nomear o fenômeno: o racismo educacional. Ele não se manifesta apenas na precariedade das escolas públicas, mas na estrutura normativa que nega aos estudantes pretos e pobres o acesso aos saberes univ...

O Racismo Ambiental como Projeto de Estado

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  Por Zacarias Gama Embora eu não habite o chão de um conjunto popular, a constante mediação que realizo entre a realidade observada e a análise crítica me permite decodificar o que as imagens que povoam a rede mundial de computadores gritam: estamos diante de quilombos construídos às expensas do Estado. O Residencial Diuza Gonçalves, em Teresina, ou outros semelhantes pelo Brasil a fora, cujos registros acompanho com rigor, não são simples empreendimentos; são a materialização de uma política que, sob o manto da "casa própria", promove um exílio geográfico e social sistemático. O que se apreende desta minha atividade intelectiva é um projeto deliberado de invisibilidade. Milhares de famílias são deslocadas de seus territórios de inserção histórica para serem depositadas em "casinhas bem construídas" no mais absoluto vácuo urbano. O "meio do nada" torna-se, assim, um depósito humano onde o direito à cidade é negado na própria gênese do bairro: não há...

Chega de Escolas Cívico-militares

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  A Justiça de São Paulo colocou um ponto final na tentativa de militarização das escolas públicas, fundamentando sua decisão em três pilares jurídicos incontestáveis. Primeiro, há um claro vício de competência: a organização da educação nacional é uma prerrogativa da União, e os estados não possuem autonomia para criar modelos que alterem a natureza das funções pedagógicas e administrativas das unidades de ensino. Segundo, ocorre um grave desvio de finalidade. A polícia tem a missão constitucional de policiar; colocá-la dentro das salas de aula representa um transbordamento indevido do Artigo 144 da Constituição Federal. Finalmente, a decisão preserva o princípio da profissionalização. O ensino público é território exclusivo de profissionais da educação com formação específica, o que garante a gestão democrática das escolas. A presença de militares em postos de gestão, ainda que sob pretexto administrativo, fere a exclusividade pedagógica e a condução civil das unidades escolares....

A ordem unida da ignorância

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Imagem Gerada por IA Zacarias Gama Por ocasião da viralização de um vídeo sobre o funcionamento cotidiano da Escola Cívico-Militar General Abreu — no qual estudantes aparecem submetidos à ordem unida, à repetição de slogans ideológicos e à disciplina castrense travestida de prática pedagógica — publiquei neste blog, em maio de 2021 ( www.zjgama.coisasdaeducação.blogspot.com ), um texto no qual manifestei minha indignação e meu posicionamento político-filosófico. Já então ficava evidente que, longe de reproduzirem o modelo histórico dos colégios militares das Forças Armadas, essas escolas, geridas por corporações policiais, subordinam os projetos político-pedagógicos da escola pública a uma concepção autoritária de mundo, combinando padronização estética, controle corporal e seletividade social — tudo em nome da sempre invocada “ordem”. A militarização da escola pública não se ancora em qualquer teoria pedagógica digna desse nome. Trata-se de um arranjo pragmático, politicamente orienta...

Anotações sobre a crise da escola e a pedagogia do nosso tempo

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  Imagem gerada por IA Zacarias Gama [1] Recentemente escrevi dois textos, publicados neste blog, sobre a precariedade da educação pública brasileira, motivado pela constatação, nas redes sociais, de um analfabetismo que já não se limita à incapacidade de decifrar textos simples ou construir frases coerentes. Trata-se de um fenômeno mais amplo, que se expandiu para o campo da sensibilidade, da atenção e da interpretação do mundo social. É um analfabetismo ampliado, que opera menos pela ausência de informação e mais pela dificuldade de estabelecer mediações, compreender estruturas, sustentar a dúvida e tolerar a complexidade. Diante desse quadro, uma pergunta se impôs quase espontaneamente: quem está educando hoje o imaginário brasileiro — e por quais meios? A resposta que encontrei não veio da escola. Tampouco das universidades ou do campo intelectual organizado. O mundo acadêmico, embora produza conhecimento sofisticado sobre educação, cultura e sociedade, fala majoritaria...

Vitórias raras e um imaginário em disputa

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  Zacarias Gama Parabéns aos realizadores do filme O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme de Língua Não Inglesa e de Melhor Ator (Wagner Moura). Uma façanha notável, que se soma ao sucesso de Ainda Estou Aqui, premiado com o Oscar de Melhor Atriz para Fernanda Torres. São momentos raros em que o cinema brasileiro rompe o isolamento simbólico e se impõe no circuito internacional. É justamente por isso que o feito impressiona — e preocupa. Tudo indica que essas conquistas não se repetirão com regularidade. O intervalo de vinte e oito anos entre as premiações de Central do Brasil (1998), Ainda Estou Aqui (2025) e O Agente Secreto (2026) não é casual: ele revela a ausência de um processo industrial contínuo de produção cinematográfica no Brasil, algo que existe de forma estruturada em Hollywood, Bollywood e Nollywood. Aqui, o sucesso ainda depende mais de exceções heroicas do que de política cultural consistente. Essa descontinuidade tem consequências profundas...